quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Um Jeito Estranho de Amar - Capítulo 42


CHRISTIAN

Terminei de colocar a travessa no forno, depois me recostei à bancada da ilha da cozinha, cruzando os braços sobre o peito, meio pensativo. Não me encontrava nem um pouco arrependido pelo trato que eu havia proposto para Ana, até porque isso a tinha deixado muito feliz.

Entretanto, eu estava meio nervoso, porque não fazia a mínima idéia de como agir, pois com certeza um namoro homossexual era diferente de um namoro entre héteros. Nós, às vezes, fazíamos brincadeiras, gestos ou carinhos que provavelmente um homem e uma mulher em um namoro não faziam.

“Não posso desistir agora. Tenho que tentar” pensei e me virei de frente, inclinando-me sobre a bancada, me apoiando pelos antebraços, deixando minha mente vagar para época em que eu e Jack namorávamos.

Me sobressaltei minutos depois, quando escutei Ana me chamar, fazendo-me olhar para o lado, a tempo de vê-la adentrar a cozinha, vestida em um dos roupões atoalhados de banho e com semblante triste.

— O que foi, amor? – perguntei, já me aprumando, assumindo o papel de namorado de mentirinha.

Ela fez um bico e se aproximou, recostando-se a mim, afundando o rosto no meu braço, que logo o ergui, fazendo Ana se aconchegar ao meu corpo, abraçando minha cintura meio de lado.

— Estou com os braços doendo de tanto ficar desembaraçando o meu cabelo – ela murmurou contra o meu peito, meio dengosa.

— Oh, minha querida. Porque não me chamou? Eu teria ido te ajudar – falei, afagando seu ombro.

Ana ergueu o rosto e me encarou, franzindo o cenho por alguns segundos, então aproveitei a posição e beijei sua testa, fazendo um tímido sorriso aparecer nos lábios dela antes da mesma voltar a recostar sua cabeça em mim.

— Estou com muita fome, amor. O que você fez pra gente comer, que tá um cheiro maravilhoso desse?

— Sanduíche de Forno – informei me desvencilhando dela.

Pedi para Ana colocar um descanso de panela sobre a mesa enquanto eu abria o forno e ela assim o fez, então levei e coloquei a travessa quente em cima do suporte de madeira. Ana logo apareceu ao meu lado, com dois pratos e alguns talheres.

— Isso tá com uma cara muito boa – ela comentou, literalmente lambendo os lábios.

Sorri e nos sentamos à mesa.

— A gente vai de barco até em casa e de lá pegaremos o carro para irmos até a cidade. Almoçaremos em um restaurante, que eu acho que você vai gostar, e depois iremos até o supermercado, fazer uma pequena feira para passar o final de semana – informei minutos depois, olhando-a, e ela assentiu dizendo um “Ok” de boca cheia.

“Ana e seus modos. Nunca mudam” pensei balançando a cabeça, sorrindo, já voltando a comer.


★ ★ ★ ★ ★


— Não estou indo de biquíni não, amor – escutei ela dizer atrás de mim, enquanto eu terminava de colocar a mala na parte de trás do meu carro.
Me afastei, aprumando-me e fechei o porta-malas, depois me virei, a encarando e sorrindo quando a vi usando o chapéu personalizado que eu havia comprado de presente para ela, dias atrás.
— Você está linda, querida. Gostou do chapéu?

— Sim. Eu amei, amor. Obrigada – Ana disse, vindo logo me dá um beijo na bochecha – Agora voltando ao que eu estava dizendo... Não estou indo com o biquíni por debaixo da roupa, não. Coloquei ele aqui dentro da bolsa. Não tem problema, tem?

— Tem não, amor. Vamos?

Ela assentiu, então a acompanhei até a porta do passageiro e a abri para que Ana entrasse, mas a mesma ficou me olhando meio desconfiada.

— Sou um namorado à moda antiga, mas não tão à antiga assim – comentei dando uma piscadinha, fazendo ela rir.

— Ok, vovô.

Agora foi a minha vez de cair na risada.

— Eu não sou tão velho assim – rebati quando entrei no carro, após ter ido fechar a casa – Tenho só trinta e quatro anos.

— Se comparado a mim, que tenho dezenove, você é um velho. Um tiozão gostoso.

A encarei rindo por um segundos, depois voltei minha atenção para a direção, finalizando a manobra no carro, já seguindo rumo ao nosso destino.

— Quanto anos o Ursinho tem? – escutei Ana perguntar alguns minutos depois.

— Nascemos no mesmo ano, mas ele faz aniversário primeiro que eu, então o Ursinho já tem trinta e cinco.

— Eita, dois tiozões gostosos só para mim. Acho que ganhei na loteria e nem percebi, né? – ela disse rindo, fazendo-me dar um sorriso.


★ ★ ★ ★ ★


— Nossa! Que lindo! – Ana exclamou, quando paramos ao lado da nossa lancha.
A ajudei a entrar e mostrei rapidamente o interior do barco, antes de eu começar a desamarrar as cordas e preparar para sairmos.
O tempo todo, Ana ficou a me observar, sentada na cadeira do piloto, então quando terminei de soltar o barco, me aproximei dela e a mesma se levantou.

— Vão ser quase três horas de barco até Bowen Island, então se quiser dormir um pouquinho na cabine ali, o tempo vai passar mais rápido para você, minha querida – informei, repousando minhas mãos em sua cintura, e ela negou com a cabeça, à medida que enlaçava-me o pescoço com seus braços.

— Vou ficar aqui, olhando o capitão bonitão pilotar.

Ana aproximou seu rosto do meu, selando nossos lábios por alguns segundos para depois afastá-los novamente, porém me vi erguer os braços, segurando seu rosto entre minhas mãos, enquanto a encarava fixamente, desviando o olhar um pouco para seus lábios meio entreabertos.

Quando dei por mim, estava descendo minha boca contra a dela, a beijando tão intensamente quanto eu beijava o Jack. Segundos depois, separamos nossos lábios à procura de ar e recostei minha testa na dela, fechando os olhos.

Em minha mente, pensamentos confusos logo surgiram, mas eu não queria me fazer aqueles questionamentos, então tratei de guardá-los para outro momento. Respirei fundo e ergui um pouco o rosto, beijando a testa da Ana, que me abraçou fortemente pela cintura, recostando-se em meu peito.

Entretanto, ela se desvencilhou um pouco de mim, quando sentimos um pequeno movimento entre nós.

— A bebê chutou – Ana murmurou, acariciando a barriga.

Fiz um carinho também e me afastei, sentando na cadeira do piloto.

— Acho que você deveria começar a dizer “Nossa filha” ao invés de “A bebê”, porque você também vai cuidar dela e ela vai te chamar de mamãe, então não tem porque continuar esse distanciamento – comentei a vendo se sentar no outro banco.

— Você tem razão – ela disse e olhou para baixo, segurando a barriga – Nossa filha.

Dei um sorriso e voltei minha atenção para o painel, já ligando o barco, saindo em seguida do porto.

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