CHRISTIAN
Eu não estava muito a fim de sair aquela noite, devido o meu plantão ter sido bastante puxado, mas quando Elliot me mandou uma mensagem, chamando-me para ir até eles, que se encontravam em um barzinho no pier 66, para que eu pudesse fazer companhia para Anastasia, eu na hora troquei de roupa, peguei as chaves da minha moto e fui o mais depressa possível.
Me encontrava um pouco eufórico quando estacionei em uma vaga, perto do Anthony’s Bar, e saí de cima da moto, já tirando o capacete. Aquele seria o nosso primeiro encontro, mesmo não parecendo um, mas poderíamos dizer que era um encontro à quatro.
Enquanto me aproximava, logo avistei meu primo, Kate e Ana, sentados à uma mesa no deck do barzinho, conversando, quer dizer, apenas Elliot e Kate conversavam, já a Anastasia, só os observava. E fora ela que notou primeiramente a minha chegada, franzindo o cenho para mim.
— Boa noite, pessoal! – exclamei os cumprimentando com um aperto de mão, já me sentando posteriormente na única cadeira vazia existente à mesa.
“Que gostosa!” pensei, olhando de relance para Ana.
— Até que enfim você chegou, Christian. A Anastasia já estava farta de segurar vela sozinha, né Aninha? – Kate indagou rindo, fazendo Ana dar de ombros, meio indiferente.
Logo Elliot e Kate voltaram a conversar entre si, então aproveitei a chance para bater um papo com a Anastasia também. Todavia, ela se encontrava mexendo no seu celular.
— Eita que não passa nenhum garçom por perto para eu pedir um copo – comentei, um pouco baixo, apenas para ela poder ouvir e funcionou, pois a mesma ergueu o olhar, me encarando.
— Beba no meu – Ana disse, mas o dela se encontrava quase cheio e pelo estado do copo, parecia que a bebida já tinha ficado até quente.
“Ou ela não gosta de beber e bebe só para acompanhar os outros. Ou bebe muito devagar, ao ponto da cerveja ficar quente” pensei.
— Mas o seu ainda não está cheio? – a questionei, observando em seguida, Anastasia beber numa só virada de copo, toda a cerveja dela.
“Caralho!” foi a única coisa que eu pensei naquele momento, quando a vi repousar o copo sobre a mesa, já o empurrando para mim.
— Podemos dividir o copo, se quiser.
— Desculpe, Christian, mas eu sou bem nojenta com relação a beber no mesmo copo, por causa da saliva da outra pessoa.
Tive que sorrir daquele comentário dela e aproveitei a saída de Kate e Elliot, que foram para uma parte do bar onde se podia dançar, para poder flertar com a Ana de um modo mais agressivo e direto.
— Não vai me dizer que você não beija ninguém!? – murmurei à medida que eu pegava a garrafa de cerveja à minha frente, ao lado de um prato de petiscos ao qual Ana se encontrava degustando.
— Beijar é inevitável, já beber no mesmo lado que a outra pessoa bebeu é evitável. E eu evito.
— Então posso te beijar sem problema, né? – arrisquei dizer, após dá um gole na cerveja do copo.
A vi me encarar de relance enquanto mastigava o petisco de carne que a mesma acabara de colocar em sua boca.
— Pode beijar, mas eu não curto essa fruta aí não – Anastasia disse depois de alguns segundos e eu franzi o cenho, confuso, já a vendo sorrir e se inclinar um pouco para o meu lado – Eu gosto de mulher, Christian.
Aquilo me fez ficar totalmente em choque.
— É sério que você é lésbica? – inquiri ainda sem acreditar.
— Eu costumo não me rotular...
— Porque?
Ela deu de ombros.
— Porque não há rótulo que me defina. Se um homem quiser transar comigo, eu transo com ele, mas não sinto prazer nisso. Então, não me encaixo no Bissexual, porque os Bi sentem prazer e atração tanto pelos homens quanto pelas mulheres. E nem me encaixo no Lésbica, porque como eu acabei de dizer, transo com homens também.
Depois dessa revelação, o nosso diálogo se tornou mais fluídico e divertido. Não porque havia desistido da Ana, muito pelo contrário, agora mais do que nunca eu iria investir nela.
Hoje fazia dois meses que eu e a Anastasia tínhamos nos tornado melhores amigos, isso na cabeça dela, porque na minha tava mais para uma Friendzone. Mas com essa amizade, passamos a confidenciar tudo sobre nossas vidas, o que para mim estava sendo maravilhoso, pois assim eu ia descobrindo coisas que ninguém sabia.
Por exemplo, que Ana era praticante de um tal de BDSM, ao qual eu fui pesquisar para ver do que se tratava e havia achado aquilo tudo muito sinistro, mas não a julguei ou nada do tipo. Outra coisa que ela tinha me contado era que a mesma já havia engravidado duas vezes e em ambas as gestações tinha sofrido aborto.
Dentre as diversas confidências que Anastasia havia me relatado durante nossas saídas noturnas, tanto para bares quanto para comer pizza em minha casa, uma em questão me deixou bem intrigado. Ana sempre deixava claro o seu ódio pelos homens, mesmo afirmando que transaria com um se quisesse.
Aquilo não fazia muita lógica. Não na minha cabeça, então eu tinha decidido que iria descobrir o motivo desse ódio todo por nós, homens. E eu faria isso hoje no refeitório, já que pela primeira vez ela iria comer lá, juntamente comigo, em comemoração ao meu aniversário.
— E aí, pronta para comer bolo? – inquiri, adentrando a Sala do Faturamento, vendo Anastasia e a chefe dela em suas respectivas mesas.
— Eu não queria ir, mas como é o seu niver, então vale o meu sacrifício – ela comentou, fazendo uma cara de poucos amigos, já se levantando e enfiando o celular no bolso detrás da calça jeans.
— Para de drama, Ana. Eu sei que tu me ama – falei piscando para ela, que riu, rolando os olhos, e me acompanhou rumo ao refeitório.
Assim que entramos, notei Anastasia mudar totalmente, se tornando meio tensa à medida que nos aproximávamos de uma mesa vazia. Enquanto começávamos a comer o pequeno bolo que eu havia comprado de manhã cedo à caminho do trabalho, percebi que ela respirava fundo várias e várias vezes.
— Você está bem, Ana?
— Uhum – ela murmurou de cabeça baixa.
— Tem certeza? – inquiri, já vendo-a erguer o olhar para mim, curvando os lábios em um sorriso.
Todavia, segundos depois, Anastasia se levantou soltando um “Desculpe, Christian. Não aguento mais isso”, antes de sair do refeitório. Fiquei sem entender o que tinha se passado, então fui atrás dela, encontrando a mesma passando pela porta que dava acesso à escada.
— Ei, doidinha? O que foi que houve? – inquiri, pegando no ombro dela, mas Ana se afastou do meu toque.
— Foi uma péssima ideia, Christian. Me desculpe – ela comentou, sentando nos degraus da escada, então me sentei ao lado dela e esperei que a mesma continuasse a falar – Eu odeio lugares com muita gente, por isso não vou ao refeitório.
— Porque você odeia?
— Tenho trauma – Anastasia disse, olhando para o lado, encarando-me.
— Se não quiser falar sobre isso, está tudo bem, Ana.
— Eu sei, mas você precisa saber o porquê de eu ser assim, meio esquisita.
— Eu não te acho assim – rebati, fazendo a mesma dar um sorriso.
— Obrigada, Christian. Mas infelizmente aos olhos do resto do mundo, eu devo parecer esquisita sim. E tudo isso graças a um garoto, mas a culpa também foi minha. Se eu não tivesse sido tão idiota, nada daquilo teria acontecido.
— Tô boiando – comentei e ela riu.
— Desde que me entendo por gente, tenho problemas com relação ao meu peso. Eu sofri muito bullying, tanto dentro de casa quanto fora, na escola, então cresci com baixa autoestima e com ódio do meu próprio corpo. Cheguei até fazer inúmeras dietas malucas, que tiveram um resultado positivo, mas não por muito tempo. Então no ensino médio, eu conheci um garoto.
— Foi seu primeiro namorado?
— Sim. No início era um amor platônico, porque eu tinha medo de me aproximar dele e o mesmo não gostar de mim, por causa do meu corpo. Mas, quando eu estava no último ano, ele do nada me defendeu de algumas garotas que zoavam de mim na saída do colégio e depois disso, o mesmo passou a falar comigo.
A vi respirar profundamente.
— Começamos a namorar e eu me sentia nas nuvens, porque finalmente alguém gostava de mim do jeito que eu era. Nunca pude desconfiar dele, porque o mesmo não fazia parte das pessoas que faziam bullying comigo então acreditei cegamente que ele era o meu príncipe encantado. Mas um dia, antes de entrarmos de férias, eu estava indo para a biblioteca quando recebi uma mensagem dele, me pedindo para ir encontrar com ele no refeitório. Quando eu entrei, tudo parecia normal, até que o grupo que me zoavam, cercaram-me e passaram a jogar comida em mim. Todos no refeitório começaram a rir e o grupinho em meio a gargalhadas apontavam para mim enquanto me xingavam de vários nomes, mas o que marcaram minha mente foram o “gorda” e o “porquinha”. Meu namorado, que só ria da situação, se aproximou e disse que ele havia feito aquilo para que eu aprendesse que lugar de porco era no chiqueiro e não na escola.
“Eu quero matar esse desgraçado!” exclamei em pensamento, já voltando a prestar atenção no que Anastasia dizia.
— Sai do refeitório aos prantos e corri para o banheiro das meninas, pensando que estava segura, mas minutos depois ele entrou com três amigos. Um ficou na porta vigiando e um outro estava com uma câmera para filmar o vídeo que posterior seria divulgado para o resto do colégio intitulado como “Tirando a virgindade da porquinha da escola”.
“Definitivamente, eu quero matar esse desgraçado!”
Não consegui dizer nada, apenas passar o meu braço por sobre o ombro dela e puxá-la para perto de mim, num meio abraço. Agora eu entendia perfeitamente o motivo dela ser tão fechada e de odiar tanto os homens.
Fazia algumas semanas que a Ana tinha me contado que havia sido abusada na adolescência, então resolvi que iria ir com calma, pois mesmo que eu tivesse apaixonado por ela, a mesma ainda não estava pronta para ter um relacionamento.
— Morreu atolado aí no vaso, foi? – ouvi Anastasia gritar do quarto, então sai do banheiro e adentrei o cômodo, já vendo ela tentando ocultar um sorriso, em vão.
— Não posso mais nem cagar em paz – reclamei, fazendo Ana cair na risada.
Toda vez que a mãe dela ia para Bowen Island, passar uns dias com o pai da Ana que estava morando lá, ela me chamava para dormir ali, porque não queria ficar sozinha no apartamento. E como éramos só amigos, por enquanto, eu sempre dormia no quarto dela, ou melhor, dividíamos a mesma cama, mas nunca rolava nada.
Entretanto, hoje eu queria que rolasse alguma coisa, nem que fosse um beijo entre a gente. Então, quando deitei, me aconcheguei a ela, repousando a cabeça sobre sua barriga, alisando a sua coxa.
— Lavou suas mãos, né? – escutei Anastasia perguntar, tocando em meu cabelo.
— Óbvio. Agora bem que você deveria parar de ser chata e podia fazer um cafuné em mim. Tô muito carente hoje.
— Sua namorada te deu um pé na bunda, foi?
— Sim e faz dias que estou na seca.
— Transa comigo então.
Ao ouvir aquilo, levantei a cabeça bruscamente e a encarei.
— É sério ou você estava zoando com a minha cara? – inquiri, pois nós tínhamos essa mania de tirar sarro um do outro, quase sempre.
— Estou falando sério, Christian. Também estou na seca faz um tempo, então porque não nos ajudarmos? Amigos são para isso, não é?
— Você quer que a gente tenha uma amizade colorida a partir de agora? – indaguei, porque queria que a Ana tomasse as iniciativas, pois assim eu saberia que ela estava começando a se abrir para a possibilidade de um relacionamento futuro.
— Eu não vejo problema nenhum da gente transar e ser amigos. É só você caprichar nas preliminares e me fazer gozar, que assim terá uma boceta disponível sempre que estiver necessitado – Anastasia informou, segundos antes de eu me inclinar e finalmente saborear aqueles lábios.
E foi assim que me vi mais apaixonado ainda pela aquela garota incrível, guerreira e meio louquinha.
“Eu vou fazer de tudo para me casar com a Ana e podermos criar nosso filho juntos, que nem uma família” pensei, sorrindo, já me ajeitando melhor na cama para poder dormir.
Eu não estava muito a fim de sair aquela noite, devido o meu plantão ter sido bastante puxado, mas quando Elliot me mandou uma mensagem, chamando-me para ir até eles, que se encontravam em um barzinho no pier 66, para que eu pudesse fazer companhia para Anastasia, eu na hora troquei de roupa, peguei as chaves da minha moto e fui o mais depressa possível.
Me encontrava um pouco eufórico quando estacionei em uma vaga, perto do Anthony’s Bar, e saí de cima da moto, já tirando o capacete. Aquele seria o nosso primeiro encontro, mesmo não parecendo um, mas poderíamos dizer que era um encontro à quatro.
— Boa noite, pessoal! – exclamei os cumprimentando com um aperto de mão, já me sentando posteriormente na única cadeira vazia existente à mesa.
“Que gostosa!” pensei, olhando de relance para Ana.
Logo Elliot e Kate voltaram a conversar entre si, então aproveitei a chance para bater um papo com a Anastasia também. Todavia, ela se encontrava mexendo no seu celular.
— Eita que não passa nenhum garçom por perto para eu pedir um copo – comentei, um pouco baixo, apenas para ela poder ouvir e funcionou, pois a mesma ergueu o olhar, me encarando.
— Beba no meu – Ana disse, mas o dela se encontrava quase cheio e pelo estado do copo, parecia que a bebida já tinha ficado até quente.
“Ou ela não gosta de beber e bebe só para acompanhar os outros. Ou bebe muito devagar, ao ponto da cerveja ficar quente” pensei.
— Mas o seu ainda não está cheio? – a questionei, observando em seguida, Anastasia beber numa só virada de copo, toda a cerveja dela.
“Caralho!” foi a única coisa que eu pensei naquele momento, quando a vi repousar o copo sobre a mesa, já o empurrando para mim.
— Podemos dividir o copo, se quiser.
— Desculpe, Christian, mas eu sou bem nojenta com relação a beber no mesmo copo, por causa da saliva da outra pessoa.
Tive que sorrir daquele comentário dela e aproveitei a saída de Kate e Elliot, que foram para uma parte do bar onde se podia dançar, para poder flertar com a Ana de um modo mais agressivo e direto.
— Não vai me dizer que você não beija ninguém!? – murmurei à medida que eu pegava a garrafa de cerveja à minha frente, ao lado de um prato de petiscos ao qual Ana se encontrava degustando.
— Beijar é inevitável, já beber no mesmo lado que a outra pessoa bebeu é evitável. E eu evito.
— Então posso te beijar sem problema, né? – arrisquei dizer, após dá um gole na cerveja do copo.
A vi me encarar de relance enquanto mastigava o petisco de carne que a mesma acabara de colocar em sua boca.
— Pode beijar, mas eu não curto essa fruta aí não – Anastasia disse depois de alguns segundos e eu franzi o cenho, confuso, já a vendo sorrir e se inclinar um pouco para o meu lado – Eu gosto de mulher, Christian.
Aquilo me fez ficar totalmente em choque.
— É sério que você é lésbica? – inquiri ainda sem acreditar.
— Eu costumo não me rotular...
— Porque?
Ela deu de ombros.
— Porque não há rótulo que me defina. Se um homem quiser transar comigo, eu transo com ele, mas não sinto prazer nisso. Então, não me encaixo no Bissexual, porque os Bi sentem prazer e atração tanto pelos homens quanto pelas mulheres. E nem me encaixo no Lésbica, porque como eu acabei de dizer, transo com homens também.
Depois dessa revelação, o nosso diálogo se tornou mais fluídico e divertido. Não porque havia desistido da Ana, muito pelo contrário, agora mais do que nunca eu iria investir nela.
★ ★ ★ ★ ★
Hoje fazia dois meses que eu e a Anastasia tínhamos nos tornado melhores amigos, isso na cabeça dela, porque na minha tava mais para uma Friendzone. Mas com essa amizade, passamos a confidenciar tudo sobre nossas vidas, o que para mim estava sendo maravilhoso, pois assim eu ia descobrindo coisas que ninguém sabia.
Por exemplo, que Ana era praticante de um tal de BDSM, ao qual eu fui pesquisar para ver do que se tratava e havia achado aquilo tudo muito sinistro, mas não a julguei ou nada do tipo. Outra coisa que ela tinha me contado era que a mesma já havia engravidado duas vezes e em ambas as gestações tinha sofrido aborto.
Dentre as diversas confidências que Anastasia havia me relatado durante nossas saídas noturnas, tanto para bares quanto para comer pizza em minha casa, uma em questão me deixou bem intrigado. Ana sempre deixava claro o seu ódio pelos homens, mesmo afirmando que transaria com um se quisesse.
Aquilo não fazia muita lógica. Não na minha cabeça, então eu tinha decidido que iria descobrir o motivo desse ódio todo por nós, homens. E eu faria isso hoje no refeitório, já que pela primeira vez ela iria comer lá, juntamente comigo, em comemoração ao meu aniversário.
— E aí, pronta para comer bolo? – inquiri, adentrando a Sala do Faturamento, vendo Anastasia e a chefe dela em suas respectivas mesas.
— Eu não queria ir, mas como é o seu niver, então vale o meu sacrifício – ela comentou, fazendo uma cara de poucos amigos, já se levantando e enfiando o celular no bolso detrás da calça jeans.
— Para de drama, Ana. Eu sei que tu me ama – falei piscando para ela, que riu, rolando os olhos, e me acompanhou rumo ao refeitório.
Assim que entramos, notei Anastasia mudar totalmente, se tornando meio tensa à medida que nos aproximávamos de uma mesa vazia. Enquanto começávamos a comer o pequeno bolo que eu havia comprado de manhã cedo à caminho do trabalho, percebi que ela respirava fundo várias e várias vezes.
— Você está bem, Ana?
— Uhum – ela murmurou de cabeça baixa.
— Tem certeza? – inquiri, já vendo-a erguer o olhar para mim, curvando os lábios em um sorriso.
Todavia, segundos depois, Anastasia se levantou soltando um “Desculpe, Christian. Não aguento mais isso”, antes de sair do refeitório. Fiquei sem entender o que tinha se passado, então fui atrás dela, encontrando a mesma passando pela porta que dava acesso à escada.
— Ei, doidinha? O que foi que houve? – inquiri, pegando no ombro dela, mas Ana se afastou do meu toque.
— Foi uma péssima ideia, Christian. Me desculpe – ela comentou, sentando nos degraus da escada, então me sentei ao lado dela e esperei que a mesma continuasse a falar – Eu odeio lugares com muita gente, por isso não vou ao refeitório.
— Porque você odeia?
— Tenho trauma – Anastasia disse, olhando para o lado, encarando-me.
— Se não quiser falar sobre isso, está tudo bem, Ana.
— Eu sei, mas você precisa saber o porquê de eu ser assim, meio esquisita.
— Eu não te acho assim – rebati, fazendo a mesma dar um sorriso.
— Obrigada, Christian. Mas infelizmente aos olhos do resto do mundo, eu devo parecer esquisita sim. E tudo isso graças a um garoto, mas a culpa também foi minha. Se eu não tivesse sido tão idiota, nada daquilo teria acontecido.
— Tô boiando – comentei e ela riu.
— Desde que me entendo por gente, tenho problemas com relação ao meu peso. Eu sofri muito bullying, tanto dentro de casa quanto fora, na escola, então cresci com baixa autoestima e com ódio do meu próprio corpo. Cheguei até fazer inúmeras dietas malucas, que tiveram um resultado positivo, mas não por muito tempo. Então no ensino médio, eu conheci um garoto.
— Foi seu primeiro namorado?
— Sim. No início era um amor platônico, porque eu tinha medo de me aproximar dele e o mesmo não gostar de mim, por causa do meu corpo. Mas, quando eu estava no último ano, ele do nada me defendeu de algumas garotas que zoavam de mim na saída do colégio e depois disso, o mesmo passou a falar comigo.
A vi respirar profundamente.
— Começamos a namorar e eu me sentia nas nuvens, porque finalmente alguém gostava de mim do jeito que eu era. Nunca pude desconfiar dele, porque o mesmo não fazia parte das pessoas que faziam bullying comigo então acreditei cegamente que ele era o meu príncipe encantado. Mas um dia, antes de entrarmos de férias, eu estava indo para a biblioteca quando recebi uma mensagem dele, me pedindo para ir encontrar com ele no refeitório. Quando eu entrei, tudo parecia normal, até que o grupo que me zoavam, cercaram-me e passaram a jogar comida em mim. Todos no refeitório começaram a rir e o grupinho em meio a gargalhadas apontavam para mim enquanto me xingavam de vários nomes, mas o que marcaram minha mente foram o “gorda” e o “porquinha”. Meu namorado, que só ria da situação, se aproximou e disse que ele havia feito aquilo para que eu aprendesse que lugar de porco era no chiqueiro e não na escola.
“Eu quero matar esse desgraçado!” exclamei em pensamento, já voltando a prestar atenção no que Anastasia dizia.
— Sai do refeitório aos prantos e corri para o banheiro das meninas, pensando que estava segura, mas minutos depois ele entrou com três amigos. Um ficou na porta vigiando e um outro estava com uma câmera para filmar o vídeo que posterior seria divulgado para o resto do colégio intitulado como “Tirando a virgindade da porquinha da escola”.
“Definitivamente, eu quero matar esse desgraçado!”
Não consegui dizer nada, apenas passar o meu braço por sobre o ombro dela e puxá-la para perto de mim, num meio abraço. Agora eu entendia perfeitamente o motivo dela ser tão fechada e de odiar tanto os homens.
★ ★ ★ ★ ★
Fazia algumas semanas que a Ana tinha me contado que havia sido abusada na adolescência, então resolvi que iria ir com calma, pois mesmo que eu tivesse apaixonado por ela, a mesma ainda não estava pronta para ter um relacionamento.
— Morreu atolado aí no vaso, foi? – ouvi Anastasia gritar do quarto, então sai do banheiro e adentrei o cômodo, já vendo ela tentando ocultar um sorriso, em vão.
— Não posso mais nem cagar em paz – reclamei, fazendo Ana cair na risada.
Toda vez que a mãe dela ia para Bowen Island, passar uns dias com o pai da Ana que estava morando lá, ela me chamava para dormir ali, porque não queria ficar sozinha no apartamento. E como éramos só amigos, por enquanto, eu sempre dormia no quarto dela, ou melhor, dividíamos a mesma cama, mas nunca rolava nada.
Entretanto, hoje eu queria que rolasse alguma coisa, nem que fosse um beijo entre a gente. Então, quando deitei, me aconcheguei a ela, repousando a cabeça sobre sua barriga, alisando a sua coxa.
— Óbvio. Agora bem que você deveria parar de ser chata e podia fazer um cafuné em mim. Tô muito carente hoje.
— Sua namorada te deu um pé na bunda, foi?
— Sim e faz dias que estou na seca.
— Transa comigo então.
Ao ouvir aquilo, levantei a cabeça bruscamente e a encarei.
— É sério ou você estava zoando com a minha cara? – inquiri, pois nós tínhamos essa mania de tirar sarro um do outro, quase sempre.
— Estou falando sério, Christian. Também estou na seca faz um tempo, então porque não nos ajudarmos? Amigos são para isso, não é?
— Você quer que a gente tenha uma amizade colorida a partir de agora? – indaguei, porque queria que a Ana tomasse as iniciativas, pois assim eu saberia que ela estava começando a se abrir para a possibilidade de um relacionamento futuro.
— Eu não vejo problema nenhum da gente transar e ser amigos. É só você caprichar nas preliminares e me fazer gozar, que assim terá uma boceta disponível sempre que estiver necessitado – Anastasia informou, segundos antes de eu me inclinar e finalmente saborear aqueles lábios.
E foi assim que me vi mais apaixonado ainda pela aquela garota incrível, guerreira e meio louquinha.
“Eu vou fazer de tudo para me casar com a Ana e podermos criar nosso filho juntos, que nem uma família” pensei, sorrindo, já me ajeitando melhor na cama para poder dormir.

Nenhum comentário:
Postar um comentário