domingo, 12 de julho de 2020

Um Presente para Christian - Capítulo 15


ANASTASIA

Me encontrava parcialmente deitada na cama, com a costa devidamente apoiada no meu travesseiro, pois desde que saímos do restaurante, ao qual fomos jantar, o nosso filho havia ficado um pouco agitado e só naquela posição era que eu tinha conseguido fazer o sapeca ficar quieto.
— Tenho até medo de perguntar o motivo desse seu olhar vago – escutei Christian dizer, chamando minha atenção, fazendo-me olhar para a porta, onde o mesmo se encontrava enrolado em uma toalha.

— Eu estava aqui pensando em uma coisa – comentei enquanto o observava se enxugar.

— Está querendo matar quem dessa vez? Eu ou a Lana?

Sorri, rolando os olhos.

— Nenhum dos dois, mas é capaz da Lana querer me matar de tanto que eu encho o saco dela. Ei? Não vai se vestir não, seu tarado? – o questionei quando ele se deitou ao meu lado, ainda nu.

— Eu não. Hoje vou dormir peladasso para deixar o bichinho pegar um pouco de vento aqui embaixo.

Não me aguentei e cai na risada, mas logo parei, com medo de que Benjamin acordasse e começasse a me chutar de novo. Então, desci um tapa no braço de Christian, que ainda ria.

— Não faz eu rir não, sua peste.

— Ué? Porque?

— Eu não quero que uma certa pessoinha acorde e me transforme em saco de pancada – falei, apontando para minha barriga, onde Christian logo fez um carinho – A gente precisa conversar sobre o nascimento do Benjamin – ressaltei um pouco séria, então ele me encarou antes de se sentar e puxar o cobertor para cima de nós, cobrindo sua nudez.

— Você está com medo de quando chegar a hora?

— Não. Não é isso, Christian. É que eu não quero ter o nosso filho em outro hospital. No Virginia, o Benjamin vai ter o melhor atendimento assim que ele nascer e eu vou me sentir mais segura com relação ao parto, se eu tiver o nosso filho lá, mas como o hospital é de alta complexidade...

— Eles não podem te internar se a gravidez não for de alto risco – Christian completou meu raciocínio, meio pensativo.

— Isso mesmo.

— E o que você quer fazer, pandinha? – ele perguntou, pegando em minha mão, olhando-me de relance.

— Na época que eu comecei a trabalhar lá no Virginia, os funcionários tinham direito à três vagas extras de internação. Uma para os pais, outra para os cônjuges e a outra para os filhos. Mas, como eu pedi demissão, acabei perdendo esse direito – comentei enquanto o observava brincar com meus dedos, tentando apertá-los com os seus – Ainda bem que me deixaram, pelo menos, continuar com o pré-natal lá no ambulatório.

— Você passou meses indo lá no hospital e por incrível que pareça, eu não te vi nenhuma vez.

Sorri.

— Claro, né seu doidinho? Você vive enfurnado nas clínicas e UTIs. Então, como eu sabia a sua rotina, não me preocupei em te encontrar acidentalmente pelos corredores do ambulatório – murmurei, dando de ombros – Mas, voltando ao assunto, você pode verificar se essa regra ainda existe lá no hospital, por favor?

— Verifico sim.

Me inclinei um pouco para o lado, aconchegando-me ao corpo do Christian e repousei minha cabeça em seu ombro. Ficamos ali, em silêncio por alguns segundos, assistindo ao que passava na televisão, até que resolvi falar a ideia em voz alta.

— Se ainda existir essa regra, a gente vai ter que casar para eu poder usar a sua vaga de internação para os cônjuges.

— Tem certeza que quer casar, minha pandinha?

Me desvencilhei dele e voltei para minha posição de antes, o encarando.

— Você sabe o que eu penso sobre casamentos, mas se um papel idiota vai ajudar a me sentir mais confiante com relação aos cuidados do Benjamin, eu não tenho outra escolha do que ir contra a minha regra de “Nunca casar”.

— Se for preciso a gente se casar, você vai querer fazer do jeito tradicional com vestido de noiva, festa de casamento e tudo mais?

— Engraçado. Até depois dos meus 15 anos, eu tinha esse sonho. Meus pais não puderam me dar uma festa de debutante, então eu pensava “Vou encontrar o meu príncipe encantado, daí vamos nos casar e eu vou poder usar aqueles vestidos de princesa, bem rodados e com aquelas coroas lindas de brilhantes” – falei, pensativa – Mas, um ano depois, após o ocorrido na escola, isso me pareceu tão supérfluo, sem graça e idiota. Eu deixei de ser aquela menina que acreditava em contos de fadas e passei a ser a garota que olha para essas coisas agora e diz “Não seja ingênua, sua idiota. Isso não existe. Contos de fadas foram criados para mascarar a vida real e deixar a realidade fodida e cruel que vivemos mais tolerável aos nossos olhos” – respirei fundo, rolando os olhos – Resumindo, os contos de fadas é o lubrificante anestésico do consolo extra-grande chamado vida real, enfiado lindamente em nossos tobas.

— Verdade. Mas, peraí? Isso quer dizer que eu sou gay? Oh meu Deus! – Christian exclamou fingindo uma cara de choque – Preciso sair do armário e dar uma de Frozen.

Aquilo me deu um acesso de riso, que tive que me levantar e sair do quarto para poder me acalmar, principalmente quando o doido começou a cantar “Let It Go”.

— Será que eu posso ter o meu amigo barra namorado hétero de volta? – indaguei, rente à porta quando ouvi ele parar de cantar.

— “Você quer brincar na neve?”– escutei Christian cantarolar.

— Se você não parar com essa escorregada feia no quiabo, eu vou dormir no sofá – ameacei, então ele abriu a porta.

— Pronto. Parei já. Não precisa dormir aí na sala não, pandinha.

Voltamos para a cama e Christian desligou a televisão.

— E então? O que você quer fazer, se a gente for realmente casar? – ele inquiriu enquanto nos ajeitávamos para dormir.

— Ir no cartório e assinar os papéis. Apenas isso. Creio que a Certidão de Casamento é o mais importante. Mas vamos deixar para falar isso depois, ok? Porque nem sabemos mesmo se vamos precisar casar ou não. Vai que até temos sorte e não precisamos desse papel.

— Ok – Christian disse e se aproximou de mim, beijando-me, intenso e animado demais para um beijo de boa noite.

— Não vou transar com você, se é essa a sua intenção – anunciei entre os nossos lábios, vendo o mesmo logo se afastar, fazendo uma careta, antes dele voltar a repousar a cabeça em seu travesseiro.

— Bem que você poderia me chupar, né?

— Não sei porque você fica insistindo nisso, se sabe que eu não vou te chupar. Nunca fiz isso desde que nos conhecemos e não vai ser agora que vou fazer.

— Você tem nojo? É isso? – ele perguntou, se deitando de frente para mim.

— Não. Eu só não gosto.

— Tem a ver com BDSM?

— Não. Tem a ver com a minha anatomia física. Toda vez que eu chupava meus ex-Donos, passava o outro dia sem poder falar de tanto que a minha mandíbula ficava dolorida. Não consigo chupar por mais de alguns segundos.

— Agora entendi.

— E já que estamos falando nisso. Você toparia praticar BDSM comigo? Ou melhor, em mim?

Ele riu, negando com a cabeça.

— Não sirvo para isso não, pandinha.

— Nem umas palmadas ou tapas nas preliminares? Eu posso me contentar só com isso por enquanto.

— Não.

— Por favorzinho, Moh.

— Você está doida? Vai que eu te bato e alguém ver as marcas. Vão acabar me denunciando por violência doméstica e ai quem toma no cu sou eu. Vou preso e minha carreira vai direto para o lixo. Não. Definitivamente, não.

Rolei os olhos.

— Meu Deus, Christian! Você é chato pra cacete, eu hein! – exclamei, emburrada e me virei para o outro lado, de costas para ele – E para a sua informação, ninguém iria ver as minhas marcas, porque eu tenho muito experiência em ocultar marcas de sessões quando morava lá na casa dos meus pais – ressaltei, olhando por sobre o ombro – Se não quer fazer isso, fala logo na cara e não fica inventando desculpas esfarrapadas.

Ajeitei o meu travesseiro com movimentos bruscos e fechei os olhos.

— Tudo bem – escutei Christian dizer, mas permaneci calada – Ei, pandinha? Não fica emburrada não – ele sussurrou, me abraçando por trás – Quando voltar de viagem, você faz uma lista de coisas leves, porque não devemos esquecer que você está grávida, e eu prometo tentar fazer essas coisas, ok?

Apenas assenti com a cabeça, lhe desejando boa noite em seguida, antes de fechar novamente meus olhos e tentar dormir.

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