domingo, 12 de julho de 2020

Um Presente para Christian - Capítulo 14


ANASTASIA

Era por volta das cinco e dez, quando saí do meu antigo quarto, acompanhada pela Lily, e fui para a sala de estar, sentando-me no sofá com os dois pacotes de batatinhas chips em mãos, para esperar o Christian chegar.

— Você fica comendo essas porcarias, depois está aí pesando uns 100 quilos. Isso se já não estiver perto de atingir esse número – ouvi minha mãe reclamar do meu peso, como sempre, fazendo-me rolar os olhos.

A ignorei, como já estava acostumada a fazer em todos esses anos, e continuei comendo o que eu tinha comprado no caminho de volta para o apartamento. Por mil vezes, eu havia pensado em desistir dessa viagem idiota, mas acabei decidindo ir com eles, apenas para ajudar o meu pai.

Mesmo nós dois não tendo uma relação de pai e filha igual a que a maioria tem, ele era o único que pelo menos se importava um pouco comigo, às vezes, já que eu era a única filha mulher que o mesmo possuía.

E por falar dele, meu pai tinha ido abastecer o carro para a viagem, mas logo ele retornou para casa e assim que o mesmo adentrou o apartamento, ele veio me entregar algo. Era um pacote de M&M Cookies.

— Não conta para sua mãe – meu pai sussurrou, sorrindo.

— Obrigada.

— É por isso que ela está ficando gorda desse jeito. Você fica incentivando ela a comer essas porcarias.

— Fui eu que dei dinheiro para ele comprar para mim – menti, para que ela calasse a maldita boca.

— Não sei com que dinheiro. Porque você não trabalha. Só fica em casa, fazendo nada de útil – rolei os olhos e olhei para a TV enquanto meu pai ia para o quarto, pois ele não gostava de ficar escutando os monólogos da minha mãe – Deveria era estar procurando um emprego ou ir fazer algum curso, ou uma faculdade, e não depender de homem para ser sustentada. Eu, com vinte e quatro anos, já tomava conta de mim mesma, bancava tanto a minha casa quanto a da sua falecida avó e nunca precisei pedir uma nota sequer para o seu pai. Já você, tem vinte e sete anos e está aí, largada, bancada pelo pai do seu filho. E se você perder esse bebê como nas outras vezes? O Christian não vai te sustentar se isso acontecer.

“É pecado desejar a morte da sua própria mãe? Provavelmente. Então... Olá, Lúcifer! Eu quero tapete vermelho na minha chegada!” pensei, à medida que eu respirava profundamente e engolia o choro, juntamente, com as lágrimas, sentindo um incômodo nó em minha garganta.

Como se Deus estivesse do meu lado, a campainha tocou e eu levantei do sofá para ir atender, livrando-me assim das palavras tóxicas da minha mãe. Eu mal abri a porta, vendo Christian parado com um sorriso no rosto, e já a fechei atrás de mim, não deixando que ele entrasse.

— O que estava havendo, pandinha? Daqui eu ouvi a discussão, ou parte dela.

— Não foi nada – falei, conseguindo curvar meus lábios em um sorriso, voltando a ser a Ana forte que eu fingia ser depois de momentos como aquele, então respirei fundo e rolei os olhos com desdém – Era só a minha mãe sendo ela mesma. Me desculpe por você ter escutado.

— Está tudo bem. Para falar a verdade, eu nem escutei direito, porque não limpei os ouvidos essa semana – ele disse, mentindo obviamente, mas me fazendo rir com aquilo.

— Ai, Christian. Só você mesmo para me fazer rir numa hora dessa – comentei e ele apertou de leve a minha bochecha.

— Então, qual era o assunto seríssimo que a gente precisava tanto conversar? – Christian perguntou, em um tom de zombaria, então me encostei na parede ao lado da porta e acariciei minha barriga, olhando para baixo, enquanto pensava em como dizer aquilo para ele – Ana? Está tudo bem?

Respirei fundo e ergui a cabeça, encarando-o por alguns segundos, antes de desviar o olhar para algum ponto invisível em sua camisa.

— Amanhã eu vou viajar bem cedo.

Ousei olhar para o rosto de Christian e logo vi uma tristeza, tanto nos seus olhos quanto em sua face.

— Você está indo embora.

Aquilo não tinha sido uma pergunta e sim um tipo de afirmação por parte dele, que só me fez sentir muita culpa por está indo nessa viagem idiota.

— Ei? Eu não estou indo embora – falei, me aproximando de Christian, pegando em seu braço – Só vou viajar para Kansas City por alguns dias.

— Quantos dias?

— São uns três dias de ida e três de volta. Mas não sei se meu pai vai querer passar na casa da minha tia na volta. Provavelmente, ele vai querer ver a irmã, então acho que ficarei fora uns oito dias no máximo.

— E o que vai fazer lá em Kansas City? – ele me questionou, franzindo o cenho, confuso.

— Meus pais estão indo buscar o Ethan – informei, me recostando novamente na parede e Christian veio se encostar ao meu lado, então ficamos de frente um para o outro – E eu preciso ir para ajudar o meu pai, porque como é uma viagem longa, ele vai precisar descansar, então eu assumirei o volante.

— Vocês não vão viajar de noite, vão? – ele me inquiriu, com a preocupação estampada em seu rosto.

— Não vamos. Minha mãe não deixa meu pai continuar dirigindo depois que passa das seis e meia.

— Ok – ele disse, já pegando o seu celular de dentro do bolso de trás da calça jeans – Eu acho que consigo fazer o Elliot me dar uma semana de licença, se eu fizer horas...

— Para, Christian – pedi num sussurro, tirando o telefone de sua mão, já encerrando a ligação que o mesmo fazia para o primo dele – Eu não quero que você tire licença para depois ter que se matar fazendo horas extras, só para cobrir esse período. Não precisa você viajar comigo. Eu vou ficar bem.

Christian não disse mais nada, apenas guardou seu celular no bolso e abaixou o olhar, começando a brincar com as pontas da faixa, que marcava o vestido abaixo do meu busto.

— Eu queria passar o Natal com você, pandinha – ele falou, finalmente.

— Também queria, porque passar o Natal trancada em um quarto de hotel, ouvindo o ronco dos meus pais, com certeza não estava nos meus planos esse ano.

Christian riu e eu o acompanhei na risada.

— Dona Grace vai ficar triste, sem você lá com a gente – ele comentou, ainda sorrindo.

— Eu sei. Ano passado foi o Natal mais divertido que tive.

— É claro que foi divertido, sua safada. Você me gravou pagando mico.

Tentei conter o riso, não foi em vão.

— Eu não mandei você ficar bêbado, tirar a roupa e ficar só de cueca na frente dos seus familiares, mandei? – indaguei, zombando dele, que logo começou a cutucar minha costela, fazendo-me cócegas – Para, seu doido. Senão vou acabar me mijando toda.

— Desculpa então, sua velhinha da bexiga frouxa.

— “Velhinha” é a sua fuça, seu sem graça – rebati, tentando da um tapa no braço dele, mas o desgraçado se esquivou, rindo.

Entretanto, Christian se aproximou de mim, quando cruzei os braços sobre o busto, fingindo estar com raiva dele e repousou suas mãos em minha cintura, dando-me um selinho em seguida.

— Posso te pedir uma coisa, minha pandinha?

— Pode.

— Vem passar essa noite comigo, lá em casa.

— Nós vamos sair bem cedo amanhã, Moh – falei, mexendo na gola de sua camisa – Tipo, umas cinco e meia da manhã.

— Por favor, pandinha! Prometo te trazer às quatro.

O encarei, incrédula, fazendo uma careta.

— Aí também não, né? Sou nenhum galo para acordar às três e meia da manhã.

Christian riu.

— Tudo bem, eu vou. Mas a gente tem que está aqui às cinco e quinze, no máximo – informei e ele assentiu – Eu só preciso pegar minha nécessaire lá na mala e eu já volto.

— Você pode usar a minha escova.

— Deixa de ser nojento, Christian! – exclamei, fazendo uma cara de nojo para ele, que sorriu, já se auto convidando para entrar no apartamento comigo.

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