domingo, 12 de julho de 2020

Um Presente para Christian - Capítulo 12


ANASTASIA

— Prontinho. Terminamos, Anastasia – disse a jovem depiladora, que logo em seguida me liberou para ir ao banheiro, a fim de tirar o robe atoalhado e vestir minha roupa.

Assim que terminei de colocar o meu vestido e calçar a rasteirinha, sai do banheiro, já pegando minha bolsa que eu havia colocado sobre uma poltrona, em um dos cantos da sala de depilação. Depois agradeci a jovem, que sorriu bem simpática, apertando minha mão.
Encontrei Christian na recepção, folheando o que parecia ser uma revista, e assim que ele me viu, largou a mesma sobre a mesinha à sua frente e se levantou do sofá, aproximando-se de mim.
— E aí, como você está?

— Tô mais lisinha do que bunda de neném – falei, fazendo ele rir.

— Não era sobre isso, mas tudo bem. E eu acho que a palavra certa é “Pele” e não “Bunda”, pandinha – Christian comentou ainda sorrindo, sussurrando “Pandinha” no meu ouvido à medida que o mesmo passava seu braço por sobre os meus ombros.

Christian me conduziu depois para perto do balcão, onde ele pagou a conta, antes da gente sair do salão de beleza.


★ ★ ★ ★ ★


Assim que chegamos em casa, Christian fez uma massagem nas minhas pernas e nos meus pés, pedindo em seguida que eu descansasse um pouco enquanto ele limpava o quarto de hóspede.

Entretanto, quando acordei, após tirar um cochilo longo, o encontrei pintando uma das paredes, que já estavam todas pintadas de branco, no estilo de listras que havíamos visto e gostado em uma foto na internet, durante o nosso almoço.
Christian se encontrava sentado no chão, meio curvado para o lado, vestindo apenas um short e estava também muito suado, pois dali da porta, eu via sua costa brilhar. Aproveitei que o mesmo não tinha notado a minha presença e me escorei na soleira da porta, observando-o, porém assim que prestei mais atenção nas listras horizontais que ele pintava, notei algo estranho.

— Isso tá torto – comentei, fazendo Christian se virar um pouco e me encarar por alguns segundos, antes de voltar a olhar para a parede.

— Não está não, pandinha. Você deve ainda tá zaroia do cochilo que deu.

Rolei os olhos.

— Vem ver daqui de onde eu estou.

— Tô ocupado agora. E já que você levantou, bem que poderia fazer um lanchinho para nós, né?

— Nada de lanche até você tirar essa sua bunda do chão e vir até aqui. Para de pintar e vem logo, Christian!

Meio a contragosto, ele se levantou e aproximou-se de mim, parando ao meu lado.

— Não tô vendo nada torto ali.

— Meu Deus! Você é cego, criatura? Está torto sim. Mede para você ver – pedi enquanto o via se afastar e se sentar novamente no chão.

— Não vou medir nada, porque não tem nada torto aqui, sua zaroia.

— Para de teimosia e mede logo esse caralho aí! – exclamei, já puta da vida.

— Oh meu saco! – Christian resmungou, mas pegou uma régua e começou a medir os espaços brancos entre as faixas azuis – Não é que está torto alguns centímetros mesmo?

— Quem é o vesgo afinal, hein? – murmurei, provocando-o – Vê se conserta essa merda que você fez aí.

— Vou consertar nada não. Vai ficar torto assim. Ele nem vai notar mesmo.

— Christian, por favor, né?

— Olha, Ana – ele começou a falar, meio aborrecido, se levantando e me encarando sério – Eu limpei o quarto, pintei tudo de branco e comecei a fazer as porras das listras azuis. Eu não vou refazer elas, nem amarrado. Se você não quer ver nada torto, então vou pintar tudo de branco e ponto final. Mas agora eu vou comer, porque estou morrendo de fome.

Dizendo aquilo, Christian passou por mim com uma expressão bem zangada. Então, parei para pensar um pouco e me dei conta que ele havia se esforçado tanto hoje a tarde e eu acabei criticando o trabalho dele. Observei o quarto, por alguns segundos, antes de sair dali e ir para a cozinha, encontrando Christian fechando uma das gavetas, com força desnecessária.

— Ei? Me desculpe – falei me aproximando dele, tocando seu braço – Vai banhar que eu vou preparar algo para a gente comer. E não precisa mudar nada não. O quarto está lindo do jeito que tá.

— Não está lindo. Está tudo torto – Christian rebateu, me olhando de relance, depois saiu da cozinha.

“Como sempre, você estraga tudo, Ana!” briguei comigo mesma, sentindo-me frustrada com aquilo.


★ ★ ★ ★ ★


Será que era exigir muito que uma grávida pedisse um pouquinho de atenção para si? Eu achava que não, mas infelizmente quando me senti carente e fui conversar nos grupos de WhatsApp que eu me encontrava, todos haviam sumido e a Lana também estava ocupada.

Eu não queria ir até a sala e pedir atenção ao Christian, mesmo a gente tendo feito as pazes durante o jantar. O problema era que ele se encontrava assistindo The Walking Dead, que era uma série de TV que eu odiava. Porém, não teve jeito e acabei me levantando da cama e indo para a sala de estar.

— Oi – falei chamando a atenção dele, antes de me sentar ao seu lado no sofá.

— Está sentindo alguma coisa, minha pandinha?

— Só estou me sentindo um pouco carente, Moh. Conversa comigo? – pedi fazendo um bico, então Christian ao invés de falar comigo, começou a conversar com o Benjamin, acariciando minha barriga, fazendo-me ficar aborrecida com aquilo – Quer saber, acho melhor eu ir dormir. Pode voltar a assistir sua série de zombies aí. Boa noite.

— Boa noite, pandinha. Já já eu vou para a cama também. Estou no último episódio dessa temporada – ele disse enquanto eu me levantava e saía da sala.

Adentrei o quarto, encostando a porta, então me deitei de lado na cama, já chorando contra o travesseiro. Minutos depois, ouvi Christian entrar no quarto e ligar a luz. Tentei ficar em silêncio, porém não consegui.

— Ana?

Logo percebi o colchão afundar às minhas costas, então limpei o rosto, meio bruscamente, quando ele tocou no meu ombro.

— O que foi, minha pandinha? Tá sentindo alguma dor?

— Não – consegui falar, sem choramingar.

— Então, porque está chorando?

— Porque ninguém gosta de mim. Ninguém gosta de conversar comigo. Toda vez que eu entro no WhatsApp, o povo some. Até a Lana que eu converso mais, some às vezes. Aí eu fui pedir um pouquinho de atenção para você, porque estou me sentindo sozinha, daí você começa a falar com o Benjamin. Não era para conversar com ele e sim comigo – acusei, tentando controlar o meu choro.

— Ah, me desculpe. Eu pensei que era para conversar com o nosso filho, para te distrair um pouco – Christian falou, segundos antes de senti-lo sair da cama.

Minutos depois, o ouvi retornar ao quarto, trancando a porta e se deitando às minhas costas.

— Ana, vem cá. Vira de frente para mim, por favor – ele pediu, tocando nos meus cabelos, então respirei fundo e fiz o que Christian disse – Não chore, minha pandinha. Eu estou aqui agora e se você quiser, ficaremos a noite toda acordados, só conversando sobre qualquer assunto que você desejar falar – ele sussurrou, acariciando meu rosto, fazendo-me sorrir.
— Não sei sobre o quê conversar – confidenciei, me aconchegando à ele, que logo me abraçou.

— Eu sei que você gosta de escrever, então porque que não escreve a nossa história quando estiver se sentindo sozinha? Dois doidinhos criando um filho juntos. Essa vai ser a maior comédia do ano.

Apenas sorri, confirmando com a cabeça.

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