sábado, 11 de julho de 2020

Um Presente para Christian - Capítulo 06


ANASTASIA

O trajeto até o apartamento do Christian foi feito em silêncio e com caras sérias. Eu consegui não chorar, mas aquele nó que se formava quando a gente prendia o choro, estava ali presente em minha garganta.

— Ana? – ouvi Christian me chamar quando segui para o quarto então dei meia volta e retornei para sala – Me desculpe. Fiquei tão empolgado com a consulta que nem cheguei a pensar no seu lado.

Ele se aproximou e me abraçou se desculpando de novo.

— Tudo bem, Christian. Você não sabe dos detalhes das minhas outras gestações, só sabe que eu tive dois abortos, mas eu quero te contar.

— Não precisa, Ana – ele disse se desvencilhando de mim.

— Precisa sim. Eu preciso jogar isso para fora. Igual aquele dia lá no trabalho que contei para você sobre o bullying e o abuso sexual que sofri no ensino médio...

— Nem me lembra disso. Porque já me sobe um sangue nos olhos e tenho vontade de matar aqueles três infelizes que te estupraram – Christian rosnou indo se sentar no sofá e fiz o mesmo, me postando ao seu lado, sentada meio que de lado, mas de frente para ele.

— Não fica assim, Christian. Mesmo eu nunca tendo denunciado, eles já estão pagando por todo mal que me fizeram, mas isso não é a questão aqui, e sim é sobre eu e esse bebê.

Respirei fundo reunindo força e continuei.

— Na minha primeira gravidez, eu estava com 12 semanas quando tive um sangramento forte e fui para o hospital. Quando o Dr. Flynn fez a ultrassom, não havia mais nada em meu útero. Fiquei muito triste, porque eu já sabia que aquele bebê seria uma menina, devido eu ter feito o exame de sexagem fetal. Então, já imaginava uma menininha linda, para eu poder comprar vestidinhos e arrumá-la como se fosse uma princesa. Eu já tinha até dado nome a ela.

— Qual?

— Minha bebê se chamaria Kalyne.

— Que nome lindo – Christian comentou sorrindo e eu também sorri, sentindo meus olhos começarem a ficar meio marejados.

— Sim. Os meses foram passando e eu sempre na esperança que poderia engravidar de novo, então veio a Letícia. Na décima oitava semana, em uma ultrassom de rotina, descobrimos a existência de um coágulo entre o útero e o saco gestacional. Fiquei com medo de que aquilo pudesse me fazer perder a minha princesinha que eu já tinha me apegado tanto então fiz tudo o que o Dr. Flynn me prescreveu, mas o maldito coágulo não diminuía, só aumentava e ia ocupando o pouco do espaço, pressionando a bebê. Foi nessa época que larguei o BDSM mais uma vez, para me focar na parte baunilha da minha vida, pensando que eu teria apoio do meu namorado...

— Foi aquele que te largou grávida e passou um tempo fora da cidade? – Christian indagou, interrompendo-me.

— Isso. Fiquei sem o apoio dele e da minha família também, que só sabiam me atacar com palavras, dizendo como eu ia sustentar um filho estando sozinha, porque eles não iam ficar com a bebê para eu ir trabalhar, que eu deveria ter pensado nisso antes de abrir minhas pernas para qualquer macho. Enfim... Na vigésima semana, eu fui me consultar de novo, foi quando o doutor me deu um pouco de esperança e de aflição, ao mesmo, pois segundo ele, precisaria drenar o coágulo antes que ele comprometesse mais a vida da minha filha. O Dr. Flynn marcou a cirurgia para dali a duas semanas, pois vinha um especialista de outra cidade para operar com ele. E também me explicou como seria o procedimento. Em tese a cirurgia era simples, segundo o que o doutor falou, eles iriam fazer uma pequena incisão na minha barriga, depois iam inserir uma agulha que iria até o local do coágulo, sem passar pelo feto, depois apenas o drenaria, para que ele reduzisse de tamanho.

Abaixei a cabeça, olhando para minhas mãos, quando senti a primeira lágrima descer.

— Foram duas semanas em prece, pedindo a Deus que tudo saísse bem, porém foi ao contrário. Minha Letícia faleceu durante o procedimento... – respirei fundo e limpei o rosto, depois continuei – Nunca soube exatamente o que houve, porque estava sedada na hora, só recebi a notícia quando acordei no quarto. Enquanto eu tentava aceitar esse novo golpe em minha vida, o Dr. Flynn me informou que estava preparando uma sala de operação, para ele fazer uma curetagem em mim. Eu não aceitei. Já tinha perdido minha filha e ainda queriam tirar ela de dentro de mim aos pedaços? Não, eu iria deixar retalharem o corpinho da minha filha, então disse a ele que iria ter ela normal. Me deram então um remédio que me induziu ao parto.

Encarei Christian e ele limpou uma outra lágrima que descia.

— Você não tem ideia de como é perder um filho e está sozinha em um quarto de hospital, sem o apoio de ninguém enquanto está sentindo dores horríveis para parir um bebê, que você sabe que ele não vai ir para casa com você depois que tudo acabar.

Não aguentei mais e deixei que o choro viesse. Christian se aproximou mais de mim e rodeando seus braços em volta dos meus ombros, me puxou para ele, fazendo-me recostar em seu peito.

— Sinto muito, Ana.

— Depois disso tudo eu entrei em depressão num nível tão profundo que até pensamentos suicidas eu tive... – murmurei contra o peito dele, minutos depois, mais calma, porém ainda meio chorosa – ...mas nunca fiz nada contra minha vida, porque eu sei que a morte não é uma saída. Você morre aqui, mas a que preço? Só para ficar sofrendo lá do outro lado? Não, se é para sofrer, que seja aqui então, bem viva. Assim como fiz no passado nos anos seguintes ao abuso, eu me fechei ainda mais. Acho que me tornei lésbica, nem tanto porque passei a odiar os homens, mas porque eu não queria engravidar mais e reviver aquele pesadelo todo.

— Eu queria ter te conhecido antes, para ter sido o seu apoio naquele momento.

— Eu sei, Christian – falei me aprumando, fazendo com que ele tirasse os braços ao redor do meus ombros – Depois que você começou a trabalhar lá no hospital e praticamente entrou na minha vida, eu nunca me senti triste. A sua amizade é tipo uma cura para minha depressão. Você tem o dom de sempre fazer as pessoas rirem por algo qualquer – comentei dando-lhe um sorriso e ele sorriu de volta – Quando me afastei, devido a descoberta dessa gravidez, eu tive várias recaídas depressivas.

— Mas você está melhor agora, Ana?

— Sim. Você me “curou” de novo.

Christian se levantou já pegando no meu braço, fazendo-me levantar também.

— Vem cá, minha doidinha gostosa – ele me abraçou de novo – Não se preocupa, ouviu? Eu torço para que dê tudo certo, mas se for da vontade de Deus que algo aconteça, você nunca mais vai estar sozinha, Ana. Eu estou aqui com você.

Me senti muito feliz em ouvir aquilo dele. Ter o apoio do meu melhor amigo era só o que importava.

— Obrigada, Christian. Te amo muito.

— Eu sei. Também te amo muito. Você é a irmãzinha que eu nunca tive – ele comentou se desvencilhando de mim, porém suas mãos ainda continuaram em minha cintura, já as minhas, permaneceram sobre os ombros dele.

— Éramos para termos vindo irmãos.

— Acho que Deus pensou assim “Vou separar esses dois doidos, porque senão a Dona Grace vai parar num hospício com tanta perturbação no juízo que esses dois vão fazer”.

Aquilo nos fez rir.

— Com certeza – concordei ainda sorrindo, foi então que lembrei de algo – E por falar em sua mãe, a gente precisa contar para os seus pais sobre o Benjamin, mas ao mesmo tempo que quero contar, eu tenho medo de perder o nosso filho e deixar seus pais decepcionados.

— Não pensa nisso, por favor, Ana – ele pediu beijando minha testa.

— Tudo bem. Então, como iremos contar para eles?

— Eita que tô varado de fome – Christian falou se afastando e olhando a hora no celular – E olha que legal, ainda é meio-dia e cinco.

Sorri já sacando a dele de ir comer na casa dos pais.

— Você não presta, Christian.

— Que isso? Não tá vendo que eu sou uma moedinha de um centavo...

— Inexistente?

— Rara e muito valiosa. Agora vai jogar uma água nesse rosto, senão vamos chegar já nas sobras do almoço e eu não tô afim de comer sobra de ninguém não.

Apenas sorri e sai rumo ao banheiro.

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