ANASTASIA
Passei o dia todo na cama, pensando em tudo que acontecera, então às seis e meia desci para ver se Christian finalmente poderia falar comigo, já que o mesmo passou o dia me ignorando. Não sei se foi de propósito ou porque simplesmente aquelas provas estavam necessitando de sua extrema atenção.
— Ainda está muito ocupado – falei em afirmação, me aproximando da mesa de jantar que se encontrava adornada de papéis.
— Ainda estou um pouco, porque? – ele disse sem tirar sua atenção da folha que ele lia atentamente.
— Eu queria conversar, mas deixa para lá. Vou fazer o jantar.
— Ok.
Fui para a cozinha, tirei o resto da lasanha do almoço de dentro da geladeira e coloquei para esquentar no forno, depois peguei alguns ingredientes para fazer uma salada enquanto que milhares de coisas me passava pela cabeça novamente, os mesmos questionamentos.
“Será que vou conseguir ser uma boa mãe?”
“Será que Christian vai machucar o nosso bebê?”
“Será que posso confiar nele?
“Será que eu vou ter coragem de denunciar o cara que eu gosto se isso acontecer?”
“Será que vou ser feliz?”
Quando dei por mim, as lágrimas já caíam sobre a tábua onde eu cortava os ingredientes.
— Porque está chorando? – escutei a voz de Christian às minhas costas.
— Estava pensando sobre o bebê – respondi, enxugando o rosto com o dorso da mão.
— Se eu soubesse que você ficaria tão arrasada assim com uma gravidez, eu nunca teria furado as camisinhas.
Parei de cortar o tomate de repente e me virei, o encarando com raiva.
— Você fez o quê, Christian!? – gritei.
— Eu não fiz nada não. Abaixa essa faca, amor.
— Que porra de amor nada. Eu vou te matar, seu desgraçado!
Corri atrás dele, mas o infeliz correu para a sala, comigo no seu encalço, é claro.
— Calma, Ana, pelo amor de Deus – ele disse tendo o sofá entre nós como sua salvação para eu não lhe enfiar aquela faca e pinicá-lo até o mesmo virar carne moída.
— Calma o caralho, Christian! Que ódio que estou de você! Meu corpo, minhas vontades! Você não tinha o direito de decidir uma coisa dessa por mim, seu infeliz!
— Me desculpe, ok? Eu fiz isso por amor. Eu queria muito casar com você e construir uma família.
— Você disse certo, “queria”, pois não vai ter mais – ressaltei voltando para a cozinha, tirando o avental, jogando-o, juntamente com a faca, sobre a mesa.
— Como assim?
— Estou voltando para o meu apartamento agora mesmo – informei, ainda bufando de raiva.
— E aquele seu paciente lunático?
— Prefiro me arriscar com o Travis do que ficar aqui com você, seu mentiroso e egoísta!
Tentei passar por ele, mas Christian me segurou e eu comecei a chorar do nada. Seus braços me envolveram, trazendo e me aconchegando em seu peito enquanto eu desabava em lágrimas.
Por alguns segundos, eu me senti protegida de novo, senti que nada de ruim ia acontecer, que eu tinha voltado a ser a Anastasia antes daquela primeira vez. Entretanto, segundos depois, me afastei de Christian e passei a dar tapas nele por onde minhas mãos alcançavam. No peito, em seus braços e ombros. Eu queria puni-lo de algum jeito, por ele ter tirado minha liberdade, liberdade essa que eu havia conquistado tão sofridamente durante esses anos.
— Eu te odeio, Christian! – vociferei e novamente uma onda de choro me pegou – Não me toca. Me deixa passar, por favor.
Ele saiu da minha frente e eu corri escada acima adentrando o quarto de hóspede, mas ao invés de arrumar minhas malas, eu me enfiei debaixo cama, chorando.
Não sei quanto tempo fiquei ali embaixo, mas escutei quando Christian adentrou, me chamando e saiu, por não me ver sobre a cama, já que eu estava sob ela. Ouvi seus gritos desesperados à minha procura até que, minutos depois, ele entrou no quarto novamente e começou a falar sozinho até que me encontrou encolhida, em posição fetal, debaixo da cama.
— Meu Deus, Ana! Você me deixou preocupado, cacete! O que está fazendo aqui embaixo? – Christian indagou, já se enfiando ali também.
— Estou me protegendo.
— De mim?
Neguei com a cabeça.
— Não. De mim, mesma.
— Vem, vamos sair daqui debaixo – ele falou saindo e estendendo a mão para mim que a encarei por alguns segundos até que a peguei – Porque estava se protegendo de si mesma? – Christian perguntou assim que me fez deitar na cama, então o vi se deitar ao meu lado, de frente para mim.
— Eu não sei... Só queria voltar a ser aquela Anastasia de antes, de tudo acontecer.
— Quer voltar a ser a sexóloga tarada que ataca os homens nos banheiros masculinos?
Dei um meio sorriso rapidamente.
— Não essa aí e sim a que eu era antes dos oito anos. Aquela que sonhava em ser uma bailarina ou uma estilista famosa. Aquela Ana antes de eu assumir a vida da minha irmã para protegê-la.
— Como assim?
— Era a Ella que queria ser médica e não eu. Naquela noite, eu não só assumir o lugar da Anabella na cama dela, mas sim a sua vida. Trocamos de lugar, pois eu me sentia culpada porque o nosso pai era maravilhoso para mim, a Anastasia. Brincava comigo, me abraçava, me amava fraternalmente, mas por alguma razão ele não gostava da Ella e quando o mesmo enchia o rabo de cachaça, só descontava na coitada. Eu não quero uma família por isso. Tenho receio de passar por situações iguais às que passei. Minha mãe não estava viva quando passamos por isso e eu não saberia lidar com algo assim se viesse acontecer.
— Eu nunca vou machucar o nosso filho ou filha, Ana. Eu não vou ser igual ao seu pai.
— O problema é esse, Christian. Tem horas que eu quero que você seja igual ao meu pai e outras não. Ele era um pai amoroso e é isso que eu queria que você fosse, mas tenho medo de que assim como meu pai, quando a noite chegasse, você acabasse se transformando naquele homem... – parei de falar de repente, já sendo tomada pelo choro novamente.
“Merda! Odeio esses malditos hormônios!”
CHRISTIAN
“Que merda, eu não sei mais o que dizer a ela” pensei angustiado enquanto via Anastasia se desmanchar em lágrimas à minha frente.
Sem muitas opções, então resolvi apenas puxá-la para os meus braços à medida que eu notava que sua crise de choro passava gradativamente.
— Obrigada – ela murmurou sobre o meu peito.
— De nada. Você ainda vai voltar para o seu apartamento?
— Eu não vou embora, mas eu preciso de um tempo longe de você para pôr minhas ideias em ordens – Ana disse se desvencilhando de mim e recostando-se à cabeceira da cama enquanto enxugava o rosto com as mãos.
— Não entendi. Você não vai embora, mas precisa ficar longe de mim?
— É assim, Christian – a vi respirar fundo – Amanhã eu vou passar o dia com a minha irmã e quem sabe passar a noite também, então provavelmente só voltarei para cá segunda-feira à noite depois do trabalho. Aí vamos sentar e conversar sobre o que iremos fazer com relação ao bebê e, principalmente, a nós.
Concordei, um pouco triste e receoso, então me levantei da cama e estendi a mão, chamando-a para irmos jantar. Anastasia disse que estava sem fome, mas a alertei de que se ficasse sem comer poderia prejudicar o bebê, então ela pegou na minha mão e me acompanhou até o andar de baixo.
Passei o dia todo na cama, pensando em tudo que acontecera, então às seis e meia desci para ver se Christian finalmente poderia falar comigo, já que o mesmo passou o dia me ignorando. Não sei se foi de propósito ou porque simplesmente aquelas provas estavam necessitando de sua extrema atenção.
— Ainda está muito ocupado – falei em afirmação, me aproximando da mesa de jantar que se encontrava adornada de papéis.
— Ainda estou um pouco, porque? – ele disse sem tirar sua atenção da folha que ele lia atentamente.
— Eu queria conversar, mas deixa para lá. Vou fazer o jantar.
— Ok.
Fui para a cozinha, tirei o resto da lasanha do almoço de dentro da geladeira e coloquei para esquentar no forno, depois peguei alguns ingredientes para fazer uma salada enquanto que milhares de coisas me passava pela cabeça novamente, os mesmos questionamentos.
“Será que Christian vai machucar o nosso bebê?”
“Será que posso confiar nele?
“Será que eu vou ter coragem de denunciar o cara que eu gosto se isso acontecer?”
“Será que vou ser feliz?”
Quando dei por mim, as lágrimas já caíam sobre a tábua onde eu cortava os ingredientes.
— Porque está chorando? – escutei a voz de Christian às minhas costas.
— Estava pensando sobre o bebê – respondi, enxugando o rosto com o dorso da mão.
— Se eu soubesse que você ficaria tão arrasada assim com uma gravidez, eu nunca teria furado as camisinhas.
Parei de cortar o tomate de repente e me virei, o encarando com raiva.
— Você fez o quê, Christian!? – gritei.
— Eu não fiz nada não. Abaixa essa faca, amor.
— Que porra de amor nada. Eu vou te matar, seu desgraçado!
Corri atrás dele, mas o infeliz correu para a sala, comigo no seu encalço, é claro.
— Calma, Ana, pelo amor de Deus – ele disse tendo o sofá entre nós como sua salvação para eu não lhe enfiar aquela faca e pinicá-lo até o mesmo virar carne moída.
— Calma o caralho, Christian! Que ódio que estou de você! Meu corpo, minhas vontades! Você não tinha o direito de decidir uma coisa dessa por mim, seu infeliz!
— Me desculpe, ok? Eu fiz isso por amor. Eu queria muito casar com você e construir uma família.
— Você disse certo, “queria”, pois não vai ter mais – ressaltei voltando para a cozinha, tirando o avental, jogando-o, juntamente com a faca, sobre a mesa.
— Como assim?
— Estou voltando para o meu apartamento agora mesmo – informei, ainda bufando de raiva.
— E aquele seu paciente lunático?
— Prefiro me arriscar com o Travis do que ficar aqui com você, seu mentiroso e egoísta!
Tentei passar por ele, mas Christian me segurou e eu comecei a chorar do nada. Seus braços me envolveram, trazendo e me aconchegando em seu peito enquanto eu desabava em lágrimas.
Por alguns segundos, eu me senti protegida de novo, senti que nada de ruim ia acontecer, que eu tinha voltado a ser a Anastasia antes daquela primeira vez. Entretanto, segundos depois, me afastei de Christian e passei a dar tapas nele por onde minhas mãos alcançavam. No peito, em seus braços e ombros. Eu queria puni-lo de algum jeito, por ele ter tirado minha liberdade, liberdade essa que eu havia conquistado tão sofridamente durante esses anos.
— Eu te odeio, Christian! – vociferei e novamente uma onda de choro me pegou – Não me toca. Me deixa passar, por favor.
Ele saiu da minha frente e eu corri escada acima adentrando o quarto de hóspede, mas ao invés de arrumar minhas malas, eu me enfiei debaixo cama, chorando.
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Não sei quanto tempo fiquei ali embaixo, mas escutei quando Christian adentrou, me chamando e saiu, por não me ver sobre a cama, já que eu estava sob ela. Ouvi seus gritos desesperados à minha procura até que, minutos depois, ele entrou no quarto novamente e começou a falar sozinho até que me encontrou encolhida, em posição fetal, debaixo da cama.
— Meu Deus, Ana! Você me deixou preocupado, cacete! O que está fazendo aqui embaixo? – Christian indagou, já se enfiando ali também.
— Estou me protegendo.
— De mim?
Neguei com a cabeça.
— Não. De mim, mesma.
— Vem, vamos sair daqui debaixo – ele falou saindo e estendendo a mão para mim que a encarei por alguns segundos até que a peguei – Porque estava se protegendo de si mesma? – Christian perguntou assim que me fez deitar na cama, então o vi se deitar ao meu lado, de frente para mim.
— Eu não sei... Só queria voltar a ser aquela Anastasia de antes, de tudo acontecer.
— Quer voltar a ser a sexóloga tarada que ataca os homens nos banheiros masculinos?
Dei um meio sorriso rapidamente.
— Não essa aí e sim a que eu era antes dos oito anos. Aquela que sonhava em ser uma bailarina ou uma estilista famosa. Aquela Ana antes de eu assumir a vida da minha irmã para protegê-la.
— Como assim?
— Era a Ella que queria ser médica e não eu. Naquela noite, eu não só assumir o lugar da Anabella na cama dela, mas sim a sua vida. Trocamos de lugar, pois eu me sentia culpada porque o nosso pai era maravilhoso para mim, a Anastasia. Brincava comigo, me abraçava, me amava fraternalmente, mas por alguma razão ele não gostava da Ella e quando o mesmo enchia o rabo de cachaça, só descontava na coitada. Eu não quero uma família por isso. Tenho receio de passar por situações iguais às que passei. Minha mãe não estava viva quando passamos por isso e eu não saberia lidar com algo assim se viesse acontecer.
— Eu nunca vou machucar o nosso filho ou filha, Ana. Eu não vou ser igual ao seu pai.
— O problema é esse, Christian. Tem horas que eu quero que você seja igual ao meu pai e outras não. Ele era um pai amoroso e é isso que eu queria que você fosse, mas tenho medo de que assim como meu pai, quando a noite chegasse, você acabasse se transformando naquele homem... – parei de falar de repente, já sendo tomada pelo choro novamente.
“Merda! Odeio esses malditos hormônios!”
CHRISTIAN
“Que merda, eu não sei mais o que dizer a ela” pensei angustiado enquanto via Anastasia se desmanchar em lágrimas à minha frente.
Sem muitas opções, então resolvi apenas puxá-la para os meus braços à medida que eu notava que sua crise de choro passava gradativamente.
— Obrigada – ela murmurou sobre o meu peito.
— De nada. Você ainda vai voltar para o seu apartamento?
— Eu não vou embora, mas eu preciso de um tempo longe de você para pôr minhas ideias em ordens – Ana disse se desvencilhando de mim e recostando-se à cabeceira da cama enquanto enxugava o rosto com as mãos.
— Não entendi. Você não vai embora, mas precisa ficar longe de mim?
— É assim, Christian – a vi respirar fundo – Amanhã eu vou passar o dia com a minha irmã e quem sabe passar a noite também, então provavelmente só voltarei para cá segunda-feira à noite depois do trabalho. Aí vamos sentar e conversar sobre o que iremos fazer com relação ao bebê e, principalmente, a nós.
Concordei, um pouco triste e receoso, então me levantei da cama e estendi a mão, chamando-a para irmos jantar. Anastasia disse que estava sem fome, mas a alertei de que se ficasse sem comer poderia prejudicar o bebê, então ela pegou na minha mão e me acompanhou até o andar de baixo.

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