sábado, 28 de março de 2020

Sussurros de um Crime - Capítulo 25


ANASTASIA

Quando cheguei em casa, uma semana depois de ter acordado do meu coma, fui recebida por uma pequena festa de boas-vindas com direito até a uma faixa toda colorida confeccionada por Teddy, Lindsey e Layla.

Enquanto recebia os abraços dos meus filhos e da família Kleyn, sendo alvo também de uma Bia fotógrafa alucinada, escutei um chorinho abafado até que vi Swanny descendo as escadas, trazendo consigo meu anjinho Joseph.

Me aproximei dela lentamente, meus olhos fixos apenas naquele pequeno ser que chorava, por fim o peguei em meus braços e mesmo sendo a segunda vez que tivera um filho, a sensação de que eu poderia deixá-lo cair ou de que o quebraria de tão frágil sempre seria a mesma.

— Meu pequeno anjinho – sussurrei o acalentando antes de Christian me informar que ele chorava porque tinha chegado a hora de mamar.

Sentando-me no sofá, tratei logo de matar a fome do meu bebê, sendo observada atentamente por todos os presentes. Enquanto amamentava, comecei a conversar com os demais, Christian e Daniel logo foram conversar no escritório.

Já Swanny chamou as crianças para a cozinha para ajudá-la a partir a torta de pão com frango que a vovó Eleonor tinha trazido. Bia sentou ao meu lado e começou a me mostrar as melhores fotos que ela ia revelar enquanto sua mãe contava que estava orgulhosa dos filhos.

Nicolay havia preferido voltar para Londres para ir estudar num internato bem conceituado visando boas notas e cursos extracurriculares para facilitar seu ingresso em uma faculdade de medicina e sua filha Beatrice só recebia ótimos elogios da professora do curso de fotografia ao qual ela fazia.

— Olha essa Ana, que linda – Bia chamou minha atenção para a sua câmera – A propósito, eu entreguei ontem para o Christian as roupas de vocês, pois quero ver todos na minha festa amanhã à noite.

— Só verifica depois se o seu saree não vai ficar grande, filha – completou Eleonor me encarando.

Saree?

— Vai ser uma festa indiana. Vi na internet festas assim e me apaixonei. Tudo colorido. Tudo muito exótico – comentou Beatrice sorrindo.

— Daniel foi que não gostou muito do tema escolhido porque diz que os homens usam vestidos.

— Queria ver se eu tivesse escolhido uma temática escocesa, aí o papai ia vestir era uma saia xadrez.

Nós rimos e Eleonor me chamou para irmos até o quarto para que Bia me ensinasse a vestir o tal do saree porque dizendo elas havia uma técnica para vestí-lo.

A primeira coisa que notei quando entramos foi que Beatrice fechou um pouco as cortinas foi então que lembrei que ela também havia feito isso na sala de estar quando Swanny desceu com Joseph no colo.

Perguntei o motivo dela ter feito aquilo e Bia me informou que pessoas albinas são sensíveis a luz forte. Agradeci imaginando que teria muito o que aprender sobre o albinismo para ajudar meu pequeno que agora dormia depois de uma boa mamada.

O resto da tarde foi regado aos relatos das aventuras escolares de Teddy e principalmente de como ele perdeu o dente mole que o deixou com uma bela janelinha dentária.

À noite ficamos só eu, Christian e Joseph, já que os meninos foram com os Kleyn para a casa de praia. Enquanto Christian tomava banho eu tinha meu momento mãe com o nosso filho e estava terminando de vesti-lo quando meu marido entrou no quarto dizendo que ia preparar o nosso jantar.

Após o banho, fui para o closet e fiquei alguns minutos escolhendo uma roupa e optei por vestir uma blusa azul claro e um shortinho preto de algodão.

Quando fui fechar uma das portas do guarda-roupa, estranhei um livro em meio as roupas do Christian e o peguei para ver o que era. Parecia uma espécie de diário antigo então folheei as primeiras folhas identificando a letra da minha mãe.

Lendo, descobri um segredo sobre o nascimento de Kim. Em umas das páginas, minha mãe relatava que Kim era na verdade filha de um breve caso extraconjugal do meu pai com a mãe do Jack.

Continuei lendo, curiosa por saber mais sobre os segredos da minha mãe, foi então que pulei para última página, ansiosa demais para tentar entender o que minha mãe estava sentindo quando escreveu pela última vez antes de cometer suicídio, e me deparei com algo chocante.

Inicialmente não acreditei, mas forçando o cérebro a funcionar um pouco, eu lembrei de algumas situações que explicavam e confirmavam aquele segredo. Uma vontade enorme de vomitar tomou-me inesperadamente então corri para o banheiro.

“Será que Christian sabe disso?” questionei-me enquanto retornava para o quarto minutos depois.

De repente, um estalo mental se fez presente. Peguei o diário e desci encontrando Christian cortando alguns ingredientes para uma salada.

— Oi, amor. Estou terminando a...

— Porque não me contou?

— Contou o quê?

— Não se faça de desentendido comigo, Christian. Desde quando você sabe sobre o diário da mamãe, ou melhor dizendo, da tia Carla? – perguntei, com raiva, fazendo-o parar de movimentar a faca.

— Você leu?

O respondi jogando o diário sobre a bancada da ilha da cozinha. O mesmo, pela força empregada por mim, deslizou até próximo a tábua de plástico.

— Desde quando? – inquiri novamente.

— Há cinco meses. Você estava em coma então não dava para eu te contar.

— Estou há uma semana acordada, Christian, então dava sim para você ter me contado. Se é que iria me contar um dia. Você se esqueceu do que prometemos um ao outro quando nos casamos? Nada de segredos, lembra Christian? E o que você faz? Acaba guardando um de mim! – falei notando que tinha elevado a voz.

— Você está fazendo uma tempestade num copo d’água – Christian deu a volta na bancada e tentou se aproximar de mim, mas recuei, fazendo-o parar – Poxa, amor! Tenta entender o meu lado, caramba! Não contei mais cedo porque eu não queria que você passasse mal por conta disso. Na sua cesárea, você quase entrou em parada cardíaca então fiquei com medo de te contar esse segredo e acontecer algo. Mas olha, se você quiser o divórcio por mim tudo bem, agora pensa nas crianças, porque eles é que serão afetados por causa disso, principalmente a Lindsey e a Layla. Mesmo que elas estejam com doze anos e possam a vir entender, eu acho injus...

— Para, Christian! – exclamei o interrompendo e me aproximei parando à sua frente, foi então que notei que seus olhos estavam marejados.

A última vez que o vi chorando foi a quase sete anos atrás e ainda assim vê-lo daquele jeito me deixava triste também.

— Christian... – comecei a falar tocando em seu rosto, olhando-o profundamente – ...eu não vou me separar de você. Eu te amo e não será um papel que irá acabar com esse amor. Bom... se é para ir para inferno que seja juntos então. Isso não foi muito legal de se dizer, né? – falei fazendo uma careta e ele deu um sorriso meio torto.

— Eu também te amo... Muito... Muito... – Christian disse rodeando-me com seus braços enquanto sutis soluços começaram a sair de sua garganta – Fiquei com medo... de que você fosse me abandonar... por causa daquele maldito diário.

— Como eu disse, um papel não vai acabar com o que eu sinto por você, querido. Um papel não vai me dizer quem eu sou, ou melhor, vai sim – desencostei a cabeça de seu ombro me afastando um pouco dele e segurei seu rosto entre minhas mãos limpando suas lágrimas com meus polegares – Charlotte morreu naquele dia e há um atestado de óbito que comprova isso. Eu cresci sendo a Anastasia e morrerei sendo a Anastasia. Quando você olha para mim, você ver a Charlotte ou a Anastasia?

— Você, Ana. A mulher que eu escolhi para passar o resto da vida juntos.

— Era só isso que eu precisava ouvir, meu amor – declarei, o beijando ternamente – Vamos esquecer isso, tá meu amor? – dei um selinho e me desvencilhei dando a volta na bancada já pegando um prato – Até porque nem temos provas para saber se o que está escrito no diário é verdade ou não – comentei começando a montar um prato para nós dois.

— Infelizmente temos – o vi se aproximar de mim – Assim que soube, coletei um pouco do seu sangue e também o meu, e o mandei para o laboratório. Positivo para consanguinidade de 1° grau.

— Vamos fingir que esse resultado é falso, que eles se enganaram e ponto final – tampei a panela deixando apenas o cheiro do risoto pairando na cozinha.

— Três vezes um mesmo resultado? Eu não posso dizer que teve erro.

— Christian, por favor. Eu estou tentando esquecer isso porque mesmo eu querendo tocar o foda-se com relação a esse segredo para o bem da nossa relação, isso infelizmente vai acabar impactando no nosso convívio então eu quero amenizar o impacto, mas você não está me ajudando, querido.

— Desculpe, amor.

— Tudo bem. Vamos falar de outra coisa? Tipo, como você aprendeu a fazer um risoto tão cheiroso como esse?

— Bia me ensinou.

— Sei – murmurei fingindo estar com ciúmes enquanto ia para a sala de estar – Só espero que você tenha se comportado e não tenha me colocado galhos na cabeça.

— A gente transou algumas vezes, porque você sabe que eu fico cheio de tesão e bem carente quando não faço sexo regularmente – ele falou sério sentando ao meu lado no chão, ao pé do sofá, com o controle na mão.

O encarei lentamente com uma expressão que dizia: “Você tá de brincadeira, né?”. Ele permaneceu me olhando seriamente até que deu uma gargalhada e me abraçou, confirmando que o que ele havia dito era pura brincadeira.

— Olha, tu para de fazer graça, viu? – indaguei descendo uns tapas nele.

— Ai amor... Você sabe que eu sou fiel a você.

— Eu sei? Eu não sei de nada não, querido, já que não estou no seu corpo.

Christian riu e me beijou, mas foi apenas para roubar o prato da minha mão. Enquanto ele comia, eu fui procurando um filme romântico para nós dois assistirmos, pensando em como era ótimo estar naquele clima bom entre a gente, depois daquilo e eu esperava que isso durasse por muito tempo.

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