sábado, 28 de março de 2020

Sussurros de um Crime - Capítulo 24


CHRISTIAN

CINCO MESES DEPOIS

Fiquei esperando pela chegada da nossa família, mas quando meu pai me ligou informando que eles não poderiam nos visitar naquelas férias devido a um contratempo, eu respirei fundo em total alívio, pois não sei se conseguiria contar a verdade para eles, sozinho.

Mais cinco meses se passaram e Ana ainda permanecia em coma, aos poucos eu estava aceitando o fato de que talvez minha esposa nunca mais acordasse e meu único medo era o de dizer aos meus filhos que a mãe deles não iria mais lhes contar histórias antes de dormir e nem acalentá-los quando viessem chorando por algo ocorrido, pois ela estava dormindo para sempre e eu era o culpado disso.

Levantei e tomei um banho deixando a água correr um pouco pela minha pele como se isso fosse tentar levar ralo abaixo todos os problemas e as dificuldades existentes em minha vida. Como hoje era sábado, Eleonor tinha vindo ontem de tarde, como sempre fazia, para levar as crianças para passarem o final de semana na casa de praia dos Kleyn em East Hampton.

Era uma bela mansão à beira mar que Eleonor e Daniel haviam adquirido quando viemos todos morar em Nova York. Meus filhos adoravam passar o sábado e o domingo brincando na praia e eu me sentia um pouco mais aliviado por eles conseguirem se distrair de todo esse clima meio melancólico que os rodeavam.

Entrei no quarto do novo integrante da família. Joseph Steele Grey. Eu mesmo realizei a cesárea da Anastasia, como programado caso ela não acordasse do coma, e quando tirei o nosso filho segurando-o pude sentir um misto de emoções.

Orgulho, por ter a chance de fazer o parto da própria minha esposa. Felicidade, por ver em minhas mãos o resultado do nosso lindo amor. Choque, por perceber que algo nele estava errado. Culpa, por descobrir que nosso filho havia nascido daquele jeito por nossa causa.

Coragem, por decidir enfrentar mais essa provação em minha vida. Esperança, por acreditar que o nosso filho saberá como superar suas limitações. E amor, porque olhando para ele ninguém poderia não se apaixonar por sua aparência.

Olhei no bercinho, mas ele não se encontrava ali então deduzi que Beatrice estaria com ele lá embaixo. Retornei ao meu quarto e peguei o grande saco de presente colocando sobre a cama de Bia antes de descer.

A encontrei sentada no chão ao pé do sofá com meu notebook sobre as pernas cruzadas, ao seu lado sobre uma manta xadrez clara, Joseph dormia tranquilamente. A sala estava parcialmente com sombras devido Beatrice ter fechado as cortinas das enormes janelas por causa da condição do meu filho.

— Bom dia, Christian – ela sussurrou assim que me aproximei deles sentando-me perto de Joseph.

— Bom dia, Bia. Esse pequeno conseguiu comer?

Eu estava muito preocupado porque meu filho não queria saber da mamadeira, mesmo que estas estivessem cheia de leite de sua própria mãe, pois todo dia quando ia ao hospital para visitar a Ana, já que havia pedido demissão dias após a cesárea dela, eu trazia o leite coletado.

Entretanto, ele criou uma dependência ao seio da mãe porque quando Joseph nasceu e ficou em observação alguns dias, as técnicas do Berçário o levavam para o quarto onde a Anastasia ainda se encontrava em coma e o colocavam em seu peito.

Então quando o mesmo recebeu alta, eu tive que ser criativo comprando uma mamadeira especial com o bico bem parecido com o formato de um seio. Isso deu certo nos últimos dois meses, mas dias atrás ele começou a rejeitar a mamadeira.

— Consegui daquele jeito que a mamãe me ensinou, de dá o peito e introduzir lentamente a mamadeira quando ele começar a sugar o meu bico – a vi suspirar meio triste – Só que eu me sinto péssima enganando o pobrezinho, Christian. Será que você não consegue autorização para levá-lo ao hospital para ele poder mamar na mãe dele?

Eu também não tinha gostado muito da solução provisória dada por Eleonor, mas eu estava de mãos atacadas e não havia outra alternativa do que aceitar e ver se Joseph conseguia se alimentar melhor.

— Infelizmente as regras daquele hospital não permitem a entrada de recém-nascidos e bebês para serem amamentados por suas mães internadas.

— O que eu acho um absurdo – resmungou Bia fazendo uma careta.

— Também, mas cada lugar tem suas regras. Só que eu conversei com seu pai e ele ia expor à diretoria do hospital a minha ideia de trazer a Ana para casa, para que as crianças pudessem ter mais acesso a ela, mesmo que para isso eu precise desmontar o nosso quarto e montar um ambiente totalmente adequado e confortável para Anastasia ser monitorada.

— Ótima ideia, Christian – ela sorriu e me passou o notebook – Olha, eu achei esse site falando tudo sobre cuidados com bebês e pessoas albinas. Eu salvei a página para o caso de você querer ler depois.

— Interessante. Obrigado, Bia. Com certeza vou ler para poder ajudar o meu filho. Já ia me esquecendo – falei me lembrando do embrulho – Em cima da sua cama tem um presente para você.

— Presente? Mas meu aniversário é só sábado que vem e aliás, eu espero que você pelo menos apareça na festa.

— Eu vou tentar, mas vá ver seu presente logo. Quero saber se você vai gostar ou não.

Ela se levantou e eu me recostei no sofá deixando o notebook em cima do assento e me inclinando para pegar meu filho no colo que tinha acordado, mas já estava quase adormecendo novamente.

Minutos depois, escutei o som do telefone, mas quando fiz menção de estender o braço para o lado a fim de pegá-lo, ele parou de tocar, provavelmente Bia havia atendido do seu quarto então retornei a ninar meu pequeno, admirando a sua beleza única.

— Vocês dois são tão lindos juntos – escutei a voz de Beatrice e ergui o rosto encontrando-a recostada no parapeito do segundo andar com sua nova câmera, agora profissional, tirando fotos de nós.

— Quero cópia das fotos que você tirar do Joseph – falei quando ela desceu e se aproximou de nós deixando sua câmera sobre o sofá.

— Claro. E obrigada pelo presente, Christian. Não precisava me dá um kit profissional inteiro de fotógrafo.

— Você merece, pois me ajuda muito com as crianças.

— Obrigada, mas agora me dá esse pequeno aqui e corre o mais rápido possível para o hospital – Bia murmurou sorrindo enquanto tirava meu filho de mim.

Meu pensamento foi logo para minha esposa.

— Aconteceu alguma coisa com a Ana?

— Sim. Ela acordou, Christian. Acabaram de ligar informando. Ela está querendo te ver.

— Meu Deus, minha Anastasia acordou e eu não estava ao seu lado!

— Para de ficar resmungando aí e vai logo ver a Ana. Traz ela logo para casa, porque estou com saudade da minha amiga.

Assenti e peguei a chave do carro indo rumo ao elevador.


★ ★ ★ ★ ★


Não recordo do que se passou durante o trajeto do apartamento até o hospital, quantos semáforos eu passei ou quantas curvas virei, pois, meu pensamento só estava na minha Anastasia.

Quando dei por mim, eu me encontrava abrindo a porta do quarto dela. Deparei-me com ela no meio do quarto sendo amparada por duas técnicas de enfermagem, ambas de cada lado. Pela toalha enrolada em sua cabeça deduzi que ela havia ido banhar.

Encurtei o espaço entre nós e ela deu um passo à frente com um enorme sorriso entrando no conforto dos meus braços. Ana parecia tão frágil que tive medo quebrá-la ao meio pelo meu abraço que transmitia toda a saudade que eu tinha de tê-la aconchegando-se em mim.

— Christian, amor – ela murmurou fazendo lágrimas virem aos meus olhos.

— É tão bom ouvir sua voz, meu amor – sussurrei acariciando sua costa sentindo os ossos de suas escápulas se projetando contra a pele e o tecido da camisola, pois ela tinha perdido peso, devido esses meses, Anastasia só ter comido dieta enteral através de uma sonda nasogástrica que notei que já haviam retirado dela, o que me fez olhar para as duas técnicas que ainda permaneciam ali – Quando ela acordou?

— Essa madrugada – Ana respondeu por elas, me fazendo encarar seu rosto magro, mas ainda sim lindo.

— E você me levanta para ir banhar? Meu Deus, Anastasia! E se você tivesse caído? – briguei imediatamente pegando ela no colo e indo rumo à cama.

Um ato desnecessário, já que o leito se encontrava apenas a quatro passos de onde estávamos, mas eu precisava tê-la mais um pouco em meus braços.

— Christian, para de brigar. Elas estavam comigo no banheiro e me banharam sentada numa cadeira. Então sem estresse, amor. Eu quero saber como você está? Como estão os nossos filhos? E o nosso bebê? Ele está bem? – ela tocou em sua barriga.

Esperei as técnicas saírem, informando-me de que iriam preparar a medicação da Ana então me sentei na beirada da cama e a encarei.

Contei-lhe tudo o que havia se passado nestes últimos sete meses em que ela tinha ficado em coma, ocultando apenas o detalhe com relação ao segredo sobre sermos irmãos, pois não sabia qual seria sua reação. Anastasia tinha acabado acordar e eu não queria perdê-la novamente.

— Então nosso pequeno Joseph é especial? – ela perguntou.

— Sim, amor. Nosso filho é albino.

— Você pode me dizer o porquê dessa doença? Todos os exames que eu fiz deram tudo normal.

— Ana, o albinismo não é uma doença propriamente dita, é mais uma alteração na aparência. Nosso filho vai ter que aprender que ele possui algumas limitações como não andar no sol sem óculos escuros e protetor solar, entre outras coisas. Alguns albinos possuem problemas na visão ou surdez, mas não fique preocupada porque a pediatra já me tranquilizou que o nosso filho não apresenta nenhum desses problemas, talvez quando ele estiver mais velho ele precise usar óculos, mas nada sério.

— Será que eu tenho algo de errado que acabou passando para o Joseph?

Eu vi em seus olhos que ela se sentia culpada, mas eu não poderia dizer que na verdade era culpa de nós dois, de sermos parentes. Não, eu não poderia dizer isso a ela.

— Não se sinta culpada, amor. Isso acontece uma vez a cada cem nascimentos e fomos os sortudos em ganharmos um lindo bebê com aparência de um anjo. Pense assim.

Uma das técnicas adentrou o quarto dizendo que o médico havia suspendido a medicação da Anastasia e que tinha reforçado o almoço dela.

Ficamos conversando sobre as crianças como elas andavam na escola, Ana também insistiu em ver fotos do novo integrante da família, mas eu fiz melhor, liguei para Beatrice e fizemos uma chamada em vídeo onde minha esposa pôde ver ao vivo nosso pequeno dormindo em seu bercinho.

— Você tinha razão, amor. Nosso filho parece um anjinho. Não vejo a hora de poder sair daqui para abraçar meus filhos e pegar o Joseph no colo – ela disse chorando.

A abracei, agradecendo a Deus por Ele ter me dado ela de volta, mesmo correndo o risco de não ficarmos juntos por conta do segredo, mas isso iria depender da Anastasia, porque para mim não me importava um texto escrito num diário, o que valia era o meu amor por ela e pronto.

E eu ia lutar por ele com unhas e dentes no caso dela querer a separação.

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