sábado, 28 de março de 2020

Sussurros de um Crime - Capítulo 23


CHRISTIAN

CHICAGO, 2013

Foi um pouco difícil achar a antiga casa dos Steele aqui na cidade e quando o táxi estacionou em frente à residência foi como se todos os momentos que passamos aqui, quando crianças, voltassem como num filme. Toquei a campainha e logo uma senhora me atendeu.

— Pois não?

— Desculpe incomodá-la, senhora, mas eu gostaria de ver o seu porão. Minha esposa já morou aqui e a mãe dela deixou um diário escondido no porão desta casa.

A mulher me olhou por alguns segundos até que deu passagem convidando-me para entrar. Um adolescente estava na sala e me encarou quando sua avó lhe pediu para me acompanhar até o porão, pois ela não poderia ir devido seu problema no joelho.

— Faz tempo que você morou aqui? – o jovem perguntou enquanto descíamos a escada.

— Foi minha esposa que morou aqui desde que nasceu até os treze anos – comuniquei indo para debaixo da escada – Esse piso foi reformado?

— Não. O vovô já me pediu para reformá-lo, mas a preguiça não me deixou fazer ainda.

O encarei por cima do ombro e o rapaz deu de ombros. Voltei a me concentrar no piso batendo o pé para achar o piso falso que meu tio havia dito.

Quando o encontrei, pedi ajuda ao jovem para levantar a madeira afastando-a para o lado, no meio do vão havia um espaço e nele continha um caderno meio empoeirado.

— O que é isso?

— Um diário – falei já pegando o caderno.

Botamos a tábua no lugar e subimos.

A senhora havia feito um suco e me chamou para contar sobre os antigos moradores enquanto comíamos biscoitos, mas dispensei gentilmente a informando de que precisava retornar, pois meu voo de volta sairia em trinta minutos.

Adentrei no táxi que havia permanecido a minha espera e seguimos rumo ao aeroporto.


★ ★ ★ ★ ★


NOVA YORK, 2013

— Voltou cedo – exclamou José se levantando da poltrona e logo ele apontou para minha mão – O que é isso?

— Um diário da mãe da Ana – falei me aproximando dele – Raymond pediu que eu lesse a última página escrita do diário dela.

— Por que?

— Dizendo ele tem um segredo sobre mim e a Anastasia.

— Sério? Você já leu?

— Não. Só peguei ele na casa e vim direto para cá. Não consigo ficar muito tempo afastado da minha Ana – comentei chegando perto de seu leito e fiz um carinho em seu delicado rosto que parecia tão sereno – Depois eu leio.

— Ah então me dá aqui que eu fiquei curioso agora para ler.

José tomou o diário da minha mão e se aproximou da janela. Fiquei ali sentado na beirada da cama, observando meu anjo adormecido até que me assustei com o palavrão proferido por José, então o encarei.

— O que foi que houve?

— Meu amigo, eu lhe aconselho a não ler o que está escrito aqui.

— Por que? – indaguei já levantando da cama – É sério assim o segredo?

— Não é sério. É seríssimo. Isto pode acabar com o seu casamento.

Sorri em deboche.

— Nada pode matar o amor que eu tenho pela Anastasia.

— Isto pode matar, enterrar e decompor esse amor. Se realmente ama ela, eu te aconselho a não saber o que está escrito aqui. Eu vou até queimar isso...

— Não vai não – murmurei tomando o diário das mãos dele e indo me sentar na poltrona enquanto ouvia os pedidos de José para que eu não lê-se.

Passei as folhas até a última e por fim comecei a ler.


Querido diário,

Faz tempo que não escrevo em você, mas eu preciso desabafar com alguém antes que isso exploda e machuque pessoas inocentes. Só você pode ouvir o nosso crime sem poder nos julgar.

Eu amo o meu marido e a minha família e fiz até o que era errado para mantê-la unida, mas este segredo está me corroendo e hoje eu darei um basta nele. Por onde eu devo começar para você entender tudo. Ah sim, pelo nascimento das crianças.

Eu e Clarisse, somos irmãs gêmeas-não idênticas, você já sabe disso a anos. Bom, nós duas engravidamos juntas, entramos em trabalho de parto juntas e ficamos no mesmo quarto também. Estranho, eu sei.

Minha irmã deu à luz a um lindo casal de gêmeos-não idênticos a quem ela deu o nome de Christian e Charlotte, enquanto a mim eu tive uma linda menina que dei o nome de Anastasia em homenagem a nossa falecida mãe.

Carrick e Raymond, ficaram muito felizes com o nascimento dos filhos e eu finalmente pude ver que Raymond me amava, pois realmente sentia dúvida com relação ao seu amor por mim.

A noite chegou e Clarisse por já ter sido mãe uma vez, me ajudou com relação a amamentação da minha princesa. Dormimos e quando acordei de madrugada, que me sentei na cama para dar de mamar, notei Ana fria, rígida e arroxeada.

Chorei abraçada a minha filha que havia morrido, foi quando Clarisse acordou e viu meu sofrimento, levantei e me aproximei dela porque minha irmã estava restrita a cama devido a cesárea.

Por ter estudado medicina, ela avaliou Anastasia e infelizmente não tinha mais o que fazer, pois pelo seu estado minha princesa fazia horas que havia falecido.

Entrei em desespero, por acreditar que Raymond me abandonaria após souber da morte da nossa filha, então Clarisse me deu a maior prova de amor que eu poderia imaginar, quando ela me propôs uma troca de bebês.

Eu ficaria com sua Charlotte para assumir o nome da minha filha e Ana assumiria o lugar da prima ao lado de Christian. A única condição que Clarisse me pediu e me fez prometer foi que os gêmeos cresceriam juntos, para que no futuro pudéssemos contar a verdade para eles.

Mas todas as noites quando eu pegava Anastasia nos braços, eu sussurrava em seu ouvido o nosso crime e pedia perdão na esperança de que a inquietude de minha alma pudesse cessar, mas nunca cessou.

E anos depois, Raymond acabou desconfiando sobre isso, o que foi motivo para brigas rotineiras em casa e acabou sendo também o motivo dele ter confrontado e matado Clarisse.

Eu sei que foi meu marido que a matou e também sei que ele está armando para culpar Carrick pela morte dela. Você deve estar se perguntando como eu sei disso, não é diário?

Raymond nunca se deu bem com Carrick, mas após a morte de Clarisse ele convidou os Grey para passarem o final de semana aqui em casa e eu vi um dia quando meu marido pediu para o meu cunhado lacrar uma carta, o que achei estranho então consegui roubá-la dias depois e a deixei com alguém de minha confiança.

Como já disse no início, hoje eu darei um basta a este meu sofrimento. Estou sendo covarde? Sim, eu estou, mas só assim o segredo de que Ana e Christian são irmãos morrerá comigo hoje e Raymond nunca terá sua certeza.

Adeus, diário. Você foi um ótimo ouvinte todos estes anos.


Ergui o olhar encarando José.

— Eu te avisei, cara – ele disse e complementou – Sinto muito por você. Vou te deixar sozinho para pensar.

“Pensar? Pensar sobre o quê? Se o que acabei de ler é verdadeiro ou não? Provavelmente era verídico, mas eu não queria acreditar. Minha mente não queria aceitar aquela verdade. A verdade de que Anastasia era a minha irmã gêmea que nossa família acreditava que estava morta. Não. Isso não pode ser possível, nem nos parecemos”

Me levantei e sentei novamente na beirada da cama, observando Ana atentamente.

Como eu havia pensado, nós não éramos parecidos, tirando apenas a cor de cabelo que era a mesma, a tonalidade dos olhos e da pele que também eram idênticos e... infelizmente tinha que admitir, que eu e Anastasia parecíamos um pouco.

— O que eu vou fazer agora? – inquiri a mim mesmo enquanto sentia o mundo, simplesmente, desmoronar aos meus pés.

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