sábado, 28 de março de 2020

Sussurros de um Crime - Capítulo 16


ANASTASIA

— Christian – minha voz saía com um chiado, mas dava para se entender – Me conta... tudo... por favor.

Ele me olhou profundamente por um tempo então começou a me contar tudo o que havia acontecido.

— Um dos monstros tinha pegado uma das pedras ornamentais da casa e bateu forte na sua cabeça que te fez ficar desacordada, tentei me soltar da cadeira e fui espancado novamente. Quando finalmente eles foram embora, eu fiquei ali imóvel encarando seu corpo desfalecido a minha frente sem poder fazer nada para te ajudar. Chorei de ódio deles e de mim mesmo, por não poder ter feito nada para te proteger, Ana. Me perdoa, meu amor. Me perdoa, por favor.

Eu podia sentir a culpa dele em cada palavra que dizia e isso era angustiante para mim.

— É claro que... eu te perdoo, Christian – declarei tocando seu rosto parcialmente curado de seus hematomas – Mas como foi que... eu vim parar no hospital?

— Antes de subirmos para arrumar as malas, eu havia ligado para uma empresa de táxi indicando o local para vir buscar a gente, pois iríamos deixar o carro na garagem. Quem nos achou foi o taxista que havia entrado na casa após eu ter conseguido fazer um barulho, assim que ele me soltou fui verificar se você ainda estava viva, seu pulso se encontrava fraco então ignorei todas as dores que sentia em meu corpo, te cobri com um lençol, te peguei no colo e usando o táxi que nos levariam para o aeroporto eu te trouxe para cá. Você foi levada direto para a sala de cirurgia enquanto que a mim fui levado para a enfermaria. Fiquei sedado por alguns dias para me recuperar dos ferimentos que havia sofrido e quando acordei pedi notícias suas então a enfermeira foi chamar o médico que estava acompanhando o seu caso.

— Era o Dr. Kleyn.

— Isso mesmo. Daniel me informou que você se encontrava em coma na U.T.I Adulto e que devido à forte pancada e ausência de socorro imediato um coágulo havia se formado em sua cabeça. Ele me perguntou se autorizava a cirurgia para remoção do coágulo, mas antes Daniel me alertou dos resultados que poderia vir a ocorrer, pois o mesmo estava localizado em uma área crítica do cérebro. Você poderia morrer durante o procedimento cirúrgico ou entraria em um coma irreversível, mas havia uma pequena possibilidade de que nada disso acontecesse. Não quis arriscar, pois como médico eu sei que essa chance era mínima comparada com as outras duas então acabei não autorizando a cirurgia. Me desculpe.

— Esse coágulo vai atrapalhar minha vida em algum sentido?

— Não. A não ser que sua cabeça sofra uma enorme pressão, o que ocorre principalmente em pessoas que praticam mergulho.

— Então nada de mergulho nas férias? – comentei dando um sorriso e ele assentiu – Agora me conta, que intimidade é essa com a mulher do médico que está tratando de mim?

— Não me diz que você está com ciúmes da Eleonor?

— Eu não.

— Você está com ciúmes da Eleonor – ele afirmou sorrindo.

— Ok. Admito que estou com um pouquinho de ciúmes dela. Agora vai me contar ou não?

— Enquanto eu estava internado, eu e Daniel ficamos amigos e acabei contando a verdade para ele sobre os nossos ferimentos então o mesmo se prontificou em me ajudar e me deu o resto da quantia que precisava para pagar a dívida.

— Que dívida é essa mesmo, Christian? Tio Carrick sabe disso? – perguntei e ele negou – Porque você nunca contou para ele?

— Vergonha pelo vício que eu tinha. Na época da faculdade, acabei me envolvendo com jogos de pôquer e comecei a apostar. Não sabia onde estava me metendo até está encrencado o suficiente. Minha dívida chegou a uma quantia exorbitante, consegui pagar a metade e pedi um prazo para poder obter o restante, mas o tempo terminou e não arranjei o dinheiro para pagá-los. Pensei que eles tivessem esquecido. Que burro eu fui em pensar isso, agora eles te machucaram por minha causa.

— Não, Christian. Para de se culpar, por favor – pedi acariciando seu rosto – Agora continua com a história.

— Daniel acabou me apresentando sua esposa que havia vindo visitá-lo e também ficamos amigos. Quando eu recebi alta, a família Kleyn me ofereceu estadia em sua casa enquanto você estava em coma. Passei todos esses dias ao seu lado desejando que você melhorasse e voltasse para mim.

— Quanto tempo eu fiquei em coma?

— Dois meses.

— Nossa. E a nossa família?

— Eles não sabem o que aconteceu com a gente, apenas liguei para o meu pai avisando que iríamos ficar mais um tempo. Eu queria primeiro conversar com você sobre isso. Saber sua opinião.

— Por enquanto eu quero ficar por aqui em Londres. Me recuperar primeiro antes de voltar para Evanston.

— Tudo bem, amor.

Acabei sorrindo, mas senti um pouquinho de dor na bochecha então me lembrei do corte.

— Ficou muito feio?

— O quê?

— O corte na minha bochecha? – indaguei e ele balançou a cabeça em sinal de negação – Posso vê?

— É melhor não, Ana.

— Eu quero ver.

Christian suspirou profundamente, tirou o celular do bolso e me entregou. Abri o aplicativo da câmera e olhei o meu reflexo. Lentamente ergui a mão e toquei em meu rosto. Uma leve e sutil cicatriz, em forma de “C”, jazia em minha bochecha direita, indo do canto superior da boca até um pouco abaixo do olho.

— Você continua linda.

— Obrigada. Poderia chamar a enfermeira, estou com um pouco de dor de cabeça.

— Claro, meu amor.

Christian saiu e eu me aconcheguei melhor no travesseiro. Logo a enfermeira e ele adentraram e ela trouxe um medicamento para dor, aplicou em mim e saiu fechando a porta. Christian fez menção em puxar uma cadeira, mas o impedi pedindo a ele que se deitasse comigo na cama.

Ele ficou meio receoso, mas por fim tirou os sapatos e eu me afastei um pouco para ele deitar. Me aconcheguei em seu peito e ficamos conversando até que adormeci.


★ ★ ★ ★ ★


DIAS DEPOIS

— Está pronta? – Christian indagou entrando no quarto.

Olhei para mim mesmo, ajeitei o meu vestido florido e assenti. A mansão da família Kleyn ficava em um dos bairros mais nobres e seguros de Londres. Quando Christian estacionou o carro, vi parados na escadaria da entrada Eleonor, Daniel e um casal de adolescentes.

— Seja bem vinda a nossa casa – disse Eleonor beijando minha bochecha – Venha, minha querida, quero te apresentar meus filhos. Está aqui é minha princesa, Beatrice.

— Bia, para os íntimos – a jovem murmurou e me abraçou.

— E este aqui é meu filho Nicolay.

— O nerd da família – Bia comentou rindo.

— Não liga para a chata da minha irmã. Ela tem inveja da minha inteligência.

— Até parece, babaca.

— Ok, meninos. Vamos parar com estas demonstrações amáveis de carinhos. Todos para dentro, pois o clima está ficando mais frio.

Após Christian me mostrar o nosso quarto, descemos para jantarmos com os outros e eu pude ter a oportunidade de conhecer melhor aquela família que estava nos ajudando. Daniel era um pai dedicado e carinhoso tanto com a mulher quanto com os filhos.

Eleonor mostrava ser uma mãe amorosa, mas também bem rígida. Beatrice era uma bela jovem e tinha planos para estudar fotografia quando terminasse o ensino médio. Nicolay era um rapaz bem inteligente e seguiria os passos do pai na medicina.

Eleonor e Daniel possuíam mais um filho que morava com a esposa e o filho numa cidade próximo de Londres. Depois do jantar, Christian deu uma desculpa dizendo que eu estava cansada e subirmos para o quarto.

Ele não forçou nenhuma situação sexual comigo e eu agradeci mentalmente por isso, pois não me considerava pronta para fazer sexo. Não agora. Queria apenas o conforto de sentir os braços de Christian em volta de mim. Me protegendo.

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