sexta-feira, 27 de março de 2020

Sussurros de um Crime - Capítulo 06


ANASTASIA

Havíamos acabado de entrar em um engarrafamento, ainda em Chicago, quando o celular do Jack começou a tocar.

— Hyde – ele atendeu e ficou sério por um tempo – Ok, estamos indo para lá – o ouvi dizer antes de desligar.

— Era a Leila? Ela descobriu algo?

— Sim, era a Leila. E sim, ela descobriu algo – ele disse me encarando por um momento com uma cara de preocupado, depois voltou sua atenção para o trânsito que ainda permanecia lento.

— Fala logo, Jack!

— Não tem as digitais e o DNA que ela achou no envelope?

— Tem. Por acaso eles batem com algum registro do nosso banco de dados? – perguntei.

— Sim. São do seu tio.

— Não é possível... – murmurei, em choque.

— E tem mais, ela também descobriu que apenas um médico no hospital recebeu aquele tipo de caneta – Jack falou virando uma esquina, saindo do engarrafamento e acelerando o carro.

— Quem, Jack? Fala logo! – inquiri, nervosa, depois de alguns minutos.

Antes de responder ele parou o carro em frente do Thorek Memorial Hospital, onde havia vários carros da polícia, tanto de Evanston quanto de Chicago.

— O único médico que recebeu a caneta foi o Doutor Carrick Grey.

Não pude acreditar no que acabara de ouvir. Saí do carro e fui em direção da entrada do hospital, mas neste momento vi meu tio sair algemado e escoltado por Hunter e José, que agradeceram o apoio da polícia local. Mais atrás estava Leila, segurando Nory, que gritava e chorava ao mesmo tempo.

Quando eles passaram por mim, tio Carrick pediu para que eu cuidasse da Nory então acenei um “Sim” com a cabeça e fui até elas. Assim que minha prima me viu, correu e me abraçou.

— Porque esses homens estão prendendo o meu pai, Ana? – ela perguntou, com os olhos vermelhos de tanto chorar.

A abracei forte, pois não teria coragem e nem sangue frio para falar o motivo. Enquanto as viaturas da polícia se distanciavam, Jack se ofereceu para levar Nory para casa, mas ela disse que queria ficar perto do pai, então consenti ao seu pedido e a conduzi até o carro, seguindo depois para Evanston.


★ ★ ★ ★ ★


Entrei na sala do Hunter e o encontrei de cabeça baixa, mexendo em alguns papéis.

— O que pensou que estava fazendo? Algemando e tratando o Carrick como um criminoso na frente da filha dele. Essa garota vai ficar traumatizada pelo resto da vida dela. Você poderia ter tido um pouco de compaixão, Hunter – as palavras saíam como um jato de água.

— Com quem? – ele falou, se levantando, dando a volta em sua mesa e parando a minha frente – Com aquele assassino que matou a própria mulher?

— Meu tio não é assassino! – gritei e sai da sala, furiosa.

— As provas mostram que ele é o assassino – ouvi Hunter falar atrás de mim então parei no meio do corredor e me virei, lentamente, encarando-o.

— E se as evidências estiverem erradas?

O silêncio era um forte indício de que todos no corredor e nas outras salas estavam assistindo aquela briga.

— Elas nunca se enganam...

— Mas os homens sim – o interrompi.

— Anastasia, você está deixando sua emoção falar por sua razão. Você está fora do caso a partir deste momento e tire o resto do dia de folga.

— Tenho uma ideia melhor – falei, me aproximando de Hunter – Eu me demito.

Empurrei meu distintivo no peito dele e coloquei minha arma na sua mão. Quando me virei vi Jack, Leila e José me olhando com uma expressão que parecia compaixão. Apenas passei por eles e entrei na minha sala.


★ ★ ★ ★ ★


— O que está havendo, Ana? – Kim perguntou enquanto eu pegava minha bolsa.

— Quando chegarmos em casa, eu explico, Nory. Vamos meninas – ordenei, já indo em direção da porta.

— Eu quero ver o meu pai! – ela pediu um pouco alterada.

— Tudo bem, Nory. Vou ver se conseguimos vê-lo antes de irmos – falei e ela se acalmou um pouco – Kim liga para o Christian agora e peça para ele vir imediatamente para cá.

— Ok.

Foi então que lembrei de que ele estava sem carro.

— Esquece a ligação, Kim. Aqui está a chave do carro, vá buscá-lo na clínica o mais rápido possível.

— Ok.

Kim pegou a chave e saiu, quase esbarrando em Jack que entrava na sala.

— Ana...

— Se veio me pedir para desistir da demissão, está perdendo seu tempo, Jack.

— Não estou aqui por isso. Vim apenas informar que vocês podem ver o Sr. Grey antes dele ser transferido para o presídio estadual.

— Presídio? Meu pai não matou ninguém! – Nory exclamou alterada novamente.

— Nory, vem cá – puxei seu braço e a abracei tentando acalmá-la – Se acalme. Seu pai é inocente. Eles estão cometendo um grande erro – falei encarando Jack com raiva.

— Me desculpe não deveria ter dito isso – ele falou.

— Mas disse. Onde ele está? – perguntei.

— Sala de Interrogatório 04.


★ ★ ★ ★ ★


— Filha?! Anastasia?! – meu tio exclamou surpreso assim que entramos na sala.

— Pai! – Nory disse e correu para abraçá-lo – Disseram que o senhor vai para a prisão, porquê?

— Eles acham que matei minha esposa, meu anjo – ele falou meio triste – Mas o que estão dizendo é tudo mentira, juro que nunca matei ninguém. Só que eles nem deixaram me defender.

— Acredito em você, tio – eu disse o abraçando também – Nem que quisesse, não poderia ter machucado a tia Clarisse.

— Como assim? – ele perguntou sem entender.

— Lembra que na noite da morte dela, o senhor colocou eu e o Christian de castigo.

— Sim, eu lembro. Raymond e Carla deixaram vocês lá em casa para passar o final de semana. No sábado, fui procurar minha caneta de uso hospitalar, pois iria trabalhar a noite no hospital e precisava dela, liguei para Clarisse que ainda estava na clínica, atendendo alguns de seus pacientes e perguntei da caneta.

O ouvia, atentamente, sentados à mesa existente na salinha.

— Ela me informou que não sabia então fui até o quarto do Christian, pois ele tinha mania de pegar canetas do meu escritório, mas Christian disse que você tinha roubado dele fazia alguns dias e levado para sua casa em Chicago. Então, como castigo coloquei os dois para limparem toda a biblioteca. Nesse dia, acabei chegando atrasado no trabalho e fui direto para a sala de operações, pois havia marcado um transplante de coração em um dos meus pacientes.

— Se eu conseguisse fazer com que eles te ouvissem, poderia repetir o que acabou de me falar, tio?

— Posso, mas é improvável que me escutem, pois para eles eu já sou culpado.

— Era culpado – Jack falou, entrando na sala segundos depois – Mas agora é apenas um suspeito até confirmarmos tudo o que disse.

— O quê? Você estava ouvindo nossa conversa? – indaguei, incrédula.

— Sim. Queríamos ver se ele iria dizer algo que o incriminasse.

— Por isso nos mandaram para vê-lo? – perguntei e ele confirmou com a cabeça.

— Tenho uma boa notícia – Jack falou e se virou para meu tio – Sua escrita não bate com a da carta então até confirmamos se o que disse é verdade ou não, você ficará nesta sala. Estamos entrando em contato com o hospital e seu filho que acaba de chegar será interrogado também.

Passados quase duas horas, Christian entrou na sala juntamente com Kim e Leila, que foi até Jack e sussurrou algo em seu ouvido.

— O senhor está livre – Jack comunicou e nós comemoramos.

— Podemos ir para casa? – Nory perguntou.

— É gente, porque estou definhando de tanta de fome – Kim falou, passando a mão na barriga.

— Hunter quer falar com você antes de ir embora – Jack me avisou então fui até lá.


★ ★ ★ ★ ★


— Armar contra um suspeito não é ilegal, Hunter? – perguntei, sentada em uma das cadeiras.

— A promotoria está me pressionando muito e quando Leila veio me avisar que a letra da carta não batia com a letra do Carrick, eu pedi que ela, Jack e José me ajudassem a fazer com que ele dissesse algo que nos levasse a descobrir a verdadeira identidade do assassino. Porque Carrick devia conhecê-lo, já que as digitais dele estão no envelope.

— Deveria ter me dito isso antes.

— Desculpe. Foi um tiro no escuro que arrisquei e graças a você e ao Christian, conseguimos uma pista do suposto assassino.

— Que bom, mas tenho que ir agora – falei, me levantando.

— Espere, Anastasia! Acho que isto aqui lhe pertence – Hunter disse estendendo meu distintivo e a arma sobre a mesa, peguei ainda indecisa – E não ande por aí falando que vai se demitir, pois uma hora eu vou acreditar – ele murmurou, sorrindo – Tire o resto do dia de folga.

— Tudo bem.

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