sexta-feira, 27 de março de 2020

Paciente 69 - Capítulo 05


MEMORIAL UNIVERSITY MEDICAL CENTER

ANASTASIA

A manhã passou e eu havia conseguido adiantar tudo que queria. Todos os pacientes eletivos já tinham ido e voltado do centro cirúrgico. E todos os exames do Christian já estavam realizados, só esperando o Dr. Trevelyan aparecer para avaliá-los.

Assim que terminei de supervisionar a passagem de plantão das técnicas, desci para o refeitório, a fim de recarregar as energias para o plantão da tarde. Acabei encontrando meu amigo, sentado em uma das mesas, então montei um prato e fui lhe fazer companhia.

Enquanto almoçávamos, Jack me informou que Leila havia ligado para ele pedindo que o mesmo a substituísse na UTI Adulto, hoje de tarde, pois ela estava naqueles dias, sangrando muito e não teria condição de vir trabalhar.

Quando retornei à clínica, encontrei a Assistente Social do hospital saindo do isolamento e a mesma me informou que tinha passado visita no paciente 69 para informar a ele que ela iria trazer o filho dele na visita das dezesseis horas.

A assistente também me confidenciou, meio angustiada, que a família que se encontrava cuidando de Teddy, provisoriamente, estava se mudando hoje e que o mesmo não teria mais onde ficar.

— Ele pode ficar com a gente – comentei, mas ela não entendeu, então complementei – Eu e o meu amigo Jack, fazemos parte da lista de casas temporárias para crianças, mas nunca nos selecionaram, porque moramos em um apartamento, trabalhamos e somos solteiros, e geralmente, acho que o juizado escolhe casas que vivem casais com filhos.

— A maioria sim, mas estou sem opções no momento e amanhã é domingo, então vou providenciar a ida do menino hoje mesmo, Srtª. Steele. Obrigada por me dar uma luz no fim do túnel – ela disse, fazendo-me sorrir.

— De nada. E por um lado, fica até mais fácil dele vir ver o pai, porque moramos aqui do lado do hospital.

— Que bacana! – a assistente exclamou e logo nos despedimos.

Assim que ela foi embora, peguei minha prancheta e fui começar a passar visita nos meus pacientes.


★ ★ ★ ★ ★


Estava finalizando a última evolução com relação à minha visita aos pacientes, quando avistei no corredor, a Assistente Social se aproximar, segurando na mão de um menino que parecia ter uns sete ou oito anos de idade. Provavelmente, deveria ser o filho do Christian.

— Boa tarde, Srtª. Steele. Este aqui é o Theodore, filho do Sr. Grey. Theo, esta é a Enfª. Anastasia Steele e será ela que irá cuidar de você a partir agora, até que seu pai receba alta. Dá um “Oi” para ela – a assistente meio que mandou, mas o menino ficou calado e logo se escondeu atrás da mesma.

A imagem dele puxando a blusa do Christian, o abraçando e enfiando o seu rostinho contra a barriga do pai, na última vez que nos vimos, me veio à mente, fazendo-me sorrir. Notei que a assistente começou a ficar impaciente com o jeito introvertido de Teddy, então me agachei e dei um sorriso acolhedor para ele, porque era evidente que o mesmo não se lembrava de mim.

— Oi, Teddy. Não precisa ficar com medo da titia. A gente já se conhece, lembra? Anos atrás, o seu papai trouxe você muito dodoí para cá. Aí eu te examinei, depois que coloquei o aparelhinho no braço do seu papai, porque você estava com medo que doesse. Lembra disso, meu amorzinho? – perguntei e o vi sair de trás da assistente e se aproximar de mim.

— Você brincou comigo numa sala cheia de brinquedos – ele disse, meio tímido e eu assenti, sorrindo, já notando um sorriso surgir em seu rostinho.

— Isso mesmo, meu amor. Você quer brincar lá comigo de novo?

— Quero ver o meu papai primeiro – Teddy murmurou, fazendo um bico.

— Eu sei que você deve está com muita saudade dele e quer ver como ele está, mas o seu papai está ocupado agora – falei pegando na mãozinha dele, já vendo-o abaixar o rosto, tristonho, então toquei em seu queixo, erguendo sua face – Ei? Não fica triste não, meu anjinho. Eu acabei de ter uma ideia maravilhosa. Porque não vem comigo até a sala de brinquedos e aí você faz um desenho bem bonitão para entregar para o seu papai, e assim fazer ele melhorar mais rápido, que tal? Gostou da ideia da titia Ana?

Teddy concordou, balançando a cabeça e sorrindo mais animado. Então, me ergui, já pedindo que a assistente me esperasse, para que a gente pudesse conversar assim que eu deixasse Teddy na brinquedoteca.

A mesma se encontrava com alguns paciente que assistiam TV, brincavam com jogos ou brinquedos, liam livros infantis, desenhavam e pintavam, sentados em mesinhas redondas.
Eu sempre liberava a sala de brinquedos para aquelas crianças que conseguiam sair de suas camas. Já para as demais, que devido suas respectivas doenças os impossibilitava de se levantar, eu imprimia vários desenhos ou levava alguns dos brinquedos e joguinhos para o leito deles.

Teddy apertou minha mão, provavelmente com medo, quando entramos na sala. Então, tentei o tranquilizar dizendo que as outras crianças eram legais e que o mesmo podia até fazer novos amigos. O conduzi até uma das mesinhas e o apresentei aos meus filhos postiços que se encontravam ali.

— Oi, Teddy – eles disseram juntos à medida que o mesmo se sentava em uma das cadeiras.

— Mamãe Ana, olha o que eu fiz para a senhora – disse uma das meninas, me entregando um desenho – Essa é a senhora vestida de fada e bailarina.
— Que linda, meu amor. Obrigada – falei a abraçando com cuidado para não prejudicar sua colostomia.

Um garotinho também me chamou, para me entregar um bilhetinho em formato de coração, e quando fui agradecê-lo, notei algo importante no desenho de uma outra paciente que se encontrava ao lado dele.

— Oi, minha princesa. Que lindo desenho. Quem são esses aqui? – perguntei, apontando para a folha que ela pintava.
— Eu, a mamãe, o papai e o tio Jim. Eu não gosto dele, mamãe Ana.

Aquilo confirmou minhas suspeitas.

— Posso ficar com o seu lindo desenho, meu anjo?

Ela assentiu, já me empurrando a folha e pegando outra em branco. Me ergui e aproximei de Teddy, agachando-me ao lado dele, entregando um papel e alguns lápis de cor para ele.

— Começa a desenhar que a titia vai ali e já volta – informei, já me erguendo, porém Teddy puxou a bainha da blusa do meu uniforme, fazendo-me agachar de novo – O que foi? Ainda está com medo?

Ele balançou a cabeça em negação.

— Não. Eu queria perguntar uma coisa.

— Pode perguntar, meu anjinho – murmurei, passando a mão sobre o cabelo dele, fazendo um carinho.

— Eu posso te chamar de “Mamãe Ana” também?

Aquilo me pegou um pouco de surpresa. Então, indo contra a minha regra de só adotar filhos postiços aqui no hospital, eu balancei a cabeça em afirmação.

— Sim, meu amorzinho. Você pode me chamar de “Mamãe Ana”.

Vi um enorme sorriso se instalar em seu rostinho, antes de Teddy se virar para frente e começar a desenhar. Sai da brinquedoteca e, me aproximando da Assistente Social, entreguei o desenho da minha paciente de seis anos, informando-a de que ela tinha um novo caso nas mãos com relação às suspeitas de abuso infantil.

Conversamos rapidamente sobre a guarda provisória de Teddy, depois a assistente foi investigar a família da menina que havia feito o desenho, para assim avisar o juizado e as demais autoridades, e providenciar a ajuda necessária.

Assim que ela saiu, fui até a janela de vidro do isolamento para verificar se Kate já tinha terminado o curativo de Christian, mas a mesma ainda se encontrava limpando o local. Então, como a clínica se encontrava calma e eu já havia evoluído todos os pacientes, me encaminhei de volta para a sala de brinquedos, onde Teddy logo me mostrou como estava ficando o desenho que ele iria entregar ao pai.
— Está ficando muito lindo, meu amor – comentei, fazendo Teddy olhar para mim, sorrindo.

— Obrigado, mamãe Ana!





CHRISTIAN

— Pronto, Sr. Grey. Terminamos. Curativo trocado com sucesso – Kate disse, tirando a máscara e dando um sorriso para mim.

“Graças a Deus, Senhor!” exclamei em pensamento, enquanto a observava arrumar as coisas na bandeja, antes dela vir me ajudar a vestir a blusa do pijama, pois meu filho logo estaria aqui para me visitar.

Estava muito ansioso para encontrá-lo novamente depois de dois meses sem ver ele. A última vez que havia visto o meu filho fora quando o entreguei ao bombeiro, que tinha vindo nos resgatar pela janela do quartinho dele, enquanto o fogo e a fumaça consumia tudo ao nosso redor.

Olha quem veio fazer uma visita murmurou Ana adentrando o quarto, minutos depois, com Teddy no colo, que logo acenou para mim, dando um sorriso enorme.

Oi, papai.

Oi, filhão falei, sorrindo e acenando de volta.

— Pega um pouquinho de álcool em gel aqui e espalha nas mãos igual te ensinei lá fora, meu amorzinho – vi ela falar e olhar para o meu filho de um jeito tão amoroso, que fiquei maravilhado, os observando, provavelmente com uma cara de bobo.
Assim, mamãe Ana?

“Mamãe Ana?” indaguei mentalmente, já franzindo o cenho, meio confuso.

Isso mesmo, meu anjinho. Agora lembra o que eu falei sobre o dodói do seu papai?

— Que não posso tocar no dodói dele – Teddy disse, enquanto eles se aproximavam da cama, onde a Ana o colocou sentado na beirada.

— Isso aí. Porque senão ele vai ficar mais tempo aqui no hospital.

Teddy assentiu a chamando de mãe novamente, antes de olhar em minha direção, sorrindo, já me mostrando um desenho, que segundo ele, era para eu poder ficar melhor e sair logo dali, pois o mesmo estava com muita saudade.

— Eu também estava com saudade de você, filhão – murmurei emocionado, pegando na sua mãozinha e o trazendo para perto de mim, abraçando-o como pude, depois pedi que o mesmo me encarasse Filho, você sabe que ela não é sua mamãe...

— Tudo bem, Christian. Ele é agora o meu filho postiço não-internado – Ana disse, parada ao pé do leito – A assistente social lhe informou que esse rapazinho aí vai ficar morando comigo?

Aquilo me deixou surpreso.

Não.

Eu e o Jack fazemos parte da lista de casais que cuidam provisoriamente de crianças, mas como não somos propriamente dizendo um “casal”, então nunca nos escolheram, mas a família que cuidava do Teddy se mudou e a assistente social precisava de um lugar para ele ficar até você ter alta, aí eu me ofereci – ela informou, dando um sorriso simpático.

Saber que a Ana se importava com o bem estar do meu filho, me fez ficar mais apaixonado por ela.

— Muito obrigado, Ana. Você realmente é um anjo – a elogiei, vendo a mesma corar pela segunda vez no dia.

A primeira tinha sido quando eu havia lhe pedido um beijo hoje mais cedo, depois dela ter feito o exame em mim. Todavia, eu ainda tinha fé de que em breve poderia saber se seus lábios eram tão doces quanto o seu jeito de cuidar das pessoas.

— Que isso, Christian. Sou uma simples enfermeira tentando ajudar quem posso. Agora preciso voltar aos meus afazeres na clínica e como esse rapazinho só vai embora quando eu for, então vocês tem mais de duas horas e meia para matarem a saudade – ela disse se aproximando de nós – Cuida bem do seu papai, meu amorzinho.

— Tá bem, mamãe Ana.

Assim que ela saiu, perguntei ao meu filho sobre como ele havia passado esses dois meses longe de mim. Então, Teddy começou a falar que tinha aprendido a jogar beisebol com o dono da casa que ele estava morando antes, como havia entrado de férias com notas boas, entre outras coisas.

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