MEMORIAL UNIVERSITY MEDICAL CENTER
ANASTASIA
A manhã passou e eu havia conseguido adiantar tudo que queria. Todos os pacientes eletivos já tinham ido e voltado do centro cirúrgico. E todos os exames do Christian já estavam realizados, só esperando o Dr. Trevelyan aparecer para avaliá-los.
Assim que terminei de supervisionar a passagem de plantão das técnicas, desci para o refeitório, a fim de recarregar as energias para o plantão da tarde. Acabei encontrando meu amigo, sentado em uma das mesas, então montei um prato e fui lhe fazer companhia.
Enquanto almoçávamos, Jack me informou que Leila havia ligado para ele pedindo que o mesmo a substituísse na UTI Adulto, hoje de tarde, pois ela estava naqueles dias, sangrando muito e não teria condição de vir trabalhar.
Quando retornei à clínica, encontrei a Assistente Social do hospital saindo do isolamento e a mesma me informou que tinha passado visita no paciente 69 para informar a ele que ela iria trazer o filho dele na visita das dezesseis horas.
A assistente também me confidenciou, meio angustiada, que a família que se encontrava cuidando de Teddy, provisoriamente, estava se mudando hoje e que o mesmo não teria mais onde ficar.
— Ele pode ficar com a gente – comentei, mas ela não entendeu, então complementei – Eu e o meu amigo Jack, fazemos parte da lista de casas temporárias para crianças, mas nunca nos selecionaram, porque moramos em um apartamento, trabalhamos e somos solteiros, e geralmente, acho que o juizado escolhe casas que vivem casais com filhos.
— A maioria sim, mas estou sem opções no momento e amanhã é domingo, então vou providenciar a ida do menino hoje mesmo, Srtª. Steele. Obrigada por me dar uma luz no fim do túnel – ela disse, fazendo-me sorrir.
— De nada. E por um lado, fica até mais fácil dele vir ver o pai, porque moramos aqui do lado do hospital.
— Que bacana! – a assistente exclamou e logo nos despedimos.
Assim que ela foi embora, peguei minha prancheta e fui começar a passar visita nos meus pacientes.
★ ★ ★ ★ ★
Estava finalizando a última evolução com relação à minha visita aos pacientes, quando avistei no corredor, a Assistente Social se aproximar, segurando na mão de um menino que parecia ter uns sete ou oito anos de idade. Provavelmente, deveria ser o filho do Christian.
— Boa tarde, Srtª. Steele. Este aqui é o Theodore, filho do Sr. Grey. Theo, esta é a Enfª. Anastasia Steele e será ela que irá cuidar de você a partir agora, até que seu pai receba alta. Dá um “Oi” para ela – a assistente meio que mandou, mas o menino ficou calado e logo se escondeu atrás da mesma.
A imagem dele puxando a blusa do Christian, o abraçando e enfiando o seu rostinho contra a barriga do pai, na última vez que nos vimos, me veio à mente, fazendo-me sorrir. Notei que a assistente começou a ficar impaciente com o jeito introvertido de Teddy, então me agachei e dei um sorriso acolhedor para ele, porque era evidente que o mesmo não se lembrava de mim.
— Oi, Teddy. Não precisa ficar com medo da titia. A gente já se conhece, lembra? Anos atrás, o seu papai trouxe você muito dodoí para cá. Aí eu te examinei, depois que coloquei o aparelhinho no braço do seu papai, porque você estava com medo que doesse. Lembra disso, meu amorzinho? – perguntei e o vi sair de trás da assistente e se aproximar de mim.
— Você brincou comigo numa sala cheia de brinquedos – ele disse, meio tímido e eu assenti, sorrindo, já notando um sorriso surgir em seu rostinho.
— Isso mesmo, meu amor. Você quer brincar lá comigo de novo?
— Quero ver o meu papai primeiro – Teddy murmurou, fazendo um bico.
— Eu sei que você deve está com muita saudade dele e quer ver como ele está, mas o seu papai está ocupado agora – falei pegando na mãozinha dele, já vendo-o abaixar o rosto, tristonho, então toquei em seu queixo, erguendo sua face – Ei? Não fica triste não, meu anjinho. Eu acabei de ter uma ideia maravilhosa. Porque não vem comigo até a sala de brinquedos e aí você faz um desenho bem bonitão para entregar para o seu papai, e assim fazer ele melhorar mais rápido, que tal? Gostou da ideia da titia Ana?
Teddy concordou, balançando a cabeça e sorrindo mais animado. Então, me ergui, já pedindo que a assistente me esperasse, para que a gente pudesse conversar assim que eu deixasse Teddy na brinquedoteca.
A mesma se encontrava com alguns paciente que assistiam TV, brincavam com jogos ou brinquedos, liam livros infantis, desenhavam e pintavam, sentados em mesinhas redondas.
Teddy apertou minha mão, provavelmente com medo, quando entramos na sala. Então, tentei o tranquilizar dizendo que as outras crianças eram legais e que o mesmo podia até fazer novos amigos. O conduzi até uma das mesinhas e o apresentei aos meus filhos postiços que se encontravam ali.
— Oi, Teddy – eles disseram juntos à medida que o mesmo se sentava em uma das cadeiras.
— Mamãe Ana, olha o que eu fiz para a senhora – disse uma das meninas, me entregando um desenho – Essa é a senhora vestida de fada e bailarina.
Um garotinho também me chamou, para me entregar um bilhetinho em formato de coração, e quando fui agradecê-lo, notei algo importante no desenho de uma outra paciente que se encontrava ao lado dele.
— Oi, minha princesa. Que lindo desenho. Quem são esses aqui? – perguntei, apontando para a folha que ela pintava.
Aquilo confirmou minhas suspeitas.
— Posso ficar com o seu lindo desenho, meu anjo?
Ela assentiu, já me empurrando a folha e pegando outra em branco. Me ergui e aproximei de Teddy, agachando-me ao lado dele, entregando um papel e alguns lápis de cor para ele.
— Começa a desenhar que a titia vai ali e já volta – informei, já me erguendo, porém Teddy puxou a bainha da blusa do meu uniforme, fazendo-me agachar de novo – O que foi? Ainda está com medo?
Ele balançou a cabeça em negação.
— Não. Eu queria perguntar uma coisa.
— Pode perguntar, meu anjinho – murmurei, passando a mão sobre o cabelo dele, fazendo um carinho.
— Eu posso te chamar de “Mamãe Ana” também?
Aquilo me pegou um pouco de surpresa. Então, indo contra a minha regra de só adotar filhos postiços aqui no hospital, eu balancei a cabeça em afirmação.
— Sim, meu amorzinho. Você pode me chamar de “Mamãe Ana”.
Vi um enorme sorriso se instalar em seu rostinho, antes de Teddy se virar para frente e começar a desenhar. Sai da brinquedoteca e, me aproximando da Assistente Social, entreguei o desenho da minha paciente de seis anos, informando-a de que ela tinha um novo caso nas mãos com relação às suspeitas de abuso infantil.
Conversamos rapidamente sobre a guarda provisória de Teddy, depois a assistente foi investigar a família da menina que havia feito o desenho, para assim avisar o juizado e as demais autoridades, e providenciar a ajuda necessária.
Assim que ela saiu, fui até a janela de vidro do isolamento para verificar se Kate já tinha terminado o curativo de Christian, mas a mesma ainda se encontrava limpando o local. Então, como a clínica se encontrava calma e eu já havia evoluído todos os pacientes, me encaminhei de volta para a sala de brinquedos, onde Teddy logo me mostrou como estava ficando o desenho que ele iria entregar ao pai.
— Obrigado, mamãe Ana!
CHRISTIAN
— Pronto, Sr. Grey. Terminamos. Curativo trocado com sucesso – Kate disse, tirando a máscara e dando um sorriso para mim.
“Graças a Deus, Senhor!” exclamei em pensamento, enquanto a observava arrumar as coisas na bandeja, antes dela vir me ajudar a vestir a blusa do pijama, pois meu filho logo estaria aqui para me visitar.
Estava muito ansioso para encontrá-lo novamente depois de dois meses sem ver ele. A última vez que havia visto o meu filho fora quando o entreguei ao bombeiro, que tinha vindo nos resgatar pela janela do quartinho dele, enquanto o fogo e a fumaça consumia tudo ao nosso redor.
— Olha quem veio fazer uma visita – murmurou Ana adentrando o quarto, minutos depois, com Teddy no colo, que logo acenou para mim, dando um sorriso enorme.
— Oi, papai.
— Oi, filhão – falei, sorrindo e acenando de volta.
— Pega um pouquinho de álcool em gel aqui e espalha nas mãos igual te ensinei lá fora, meu amorzinho – vi ela falar e olhar para o meu filho de um jeito tão amoroso, que fiquei maravilhado, os observando, provavelmente com uma cara de bobo.
“Mamãe Ana?” indaguei mentalmente, já franzindo o cenho, meio confuso.
— Isso mesmo, meu anjinho. Agora lembra o que eu falei sobre o dodói do seu papai?
— Que não posso tocar no dodói dele – Teddy disse, enquanto eles se aproximavam da cama, onde a Ana o colocou sentado na beirada.
— Isso aí. Porque senão ele vai ficar mais tempo aqui no hospital.
Teddy assentiu a chamando de mãe novamente, antes de olhar em minha direção, sorrindo, já me mostrando um desenho, que segundo ele, era para eu poder ficar melhor e sair logo dali, pois o mesmo estava com muita saudade.
— Eu também estava com saudade de você, filhão – murmurei emocionado, pegando na sua mãozinha e o trazendo para perto de mim, abraçando-o como pude, depois pedi que o mesmo me encarasse – Filho, você sabe que ela não é sua mamãe...
— Tudo bem, Christian. Ele é agora o meu filho postiço não-internado – Ana disse, parada ao pé do leito – A assistente social lhe informou que esse rapazinho aí vai ficar morando comigo?
Aquilo me deixou surpreso.
— Não.
— Eu e o Jack fazemos parte da lista de casais que cuidam provisoriamente de crianças, mas como não somos propriamente dizendo um “casal”, então nunca nos escolheram, mas a família que cuidava do Teddy se mudou e a assistente social precisava de um lugar para ele ficar até você ter alta, aí eu me ofereci – ela informou, dando um sorriso simpático.
Saber que a Ana se importava com o bem estar do meu filho, me fez ficar mais apaixonado por ela.
— Muito obrigado, Ana. Você realmente é um anjo – a elogiei, vendo a mesma corar pela segunda vez no dia.
A primeira tinha sido quando eu havia lhe pedido um beijo hoje mais cedo, depois dela ter feito o exame em mim. Todavia, eu ainda tinha fé de que em breve poderia saber se seus lábios eram tão doces quanto o seu jeito de cuidar das pessoas.
— Que isso, Christian. Sou uma simples enfermeira tentando ajudar quem posso. Agora preciso voltar aos meus afazeres na clínica e como esse rapazinho só vai embora quando eu for, então vocês tem mais de duas horas e meia para matarem a saudade – ela disse se aproximando de nós – Cuida bem do seu papai, meu amorzinho.
— Tá bem, mamãe Ana.
Assim que ela saiu, perguntei ao meu filho sobre como ele havia passado esses dois meses longe de mim. Então, Teddy começou a falar que tinha aprendido a jogar beisebol com o dono da casa que ele estava morando antes, como havia entrado de férias com notas boas, entre outras coisas.

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