sexta-feira, 27 de março de 2020

Paciente 69 - Capítulo 04


MEMORIAL UNIVERSITY MEDICAL CENTER

ANASTASIA

Desde que saí daquele quarto, eu não parava de pensar sobre o que havia acontecido. Em como eu pude fazer aquilo com um paciente, dentro do hospital, correndo o risco de ser pega em flagrante e acabar sendo demitida.

“Senhor, com que cara eu vou passar visita amanhã no isolamento?” pensei enquanto terminava de abrir o meu armário.

— Terra chamando Ana – escutei Leila falar, então olhei para o lado, vendo tanto ela quanto Jack na porta do vestiário, rindo.

— As hienas estão rindo de quê, hein?

— Dessa sua cara avoada, amiga – ela disse passando por mim e indo até o seu armário.

— Sonhando comigo, né amor? – Jack indagou se aproximando e eu rolei os olhos enquanto pegava minha bolsa e o casaco.

— Ela deve tá é sonhando com o novo paciente dela, Jack.

— Não estou sonhando com ninguém, ok? Ver se vocês dois me erra hoje – resmunguei com raiva.

Terminei de fechar o meu armário e saí do vestiário, indo bater o meu ponto.


★ ★ ★ ★ ★


THE BOWER RESIDENCE, APART. 06

Não havia esperado por Jack para voltarmos juntos para casa, porém quando estava adentrando o prédio, onde ficava o nosso apartamento, ele me assustou, segurando minha cintura por trás.
— Ai que susto, seu doido! Só não te dou uma mãozada porque... Eu nem sei porque mesmo – comentei, já subindo os degraus da escada.

— Porque eu sou um amor de pessoa – ouvi ele dizer atrás de mim, fazendo-me sorrir e rolar os olhos – Leila me contou que o paciente do 69 é aquele cara que veio tempo atrás com o filho dele, lembra?

— Sim. Eu lembro. E sabe o que ele me disse? – indaguei quando Jack me acompanhou, assim que chegando à porta do apartamento.

— Não.

— Que você disse à ele que nos dois éramos noivos.

O encarei e ele deu de ombros, antes de entrar no apartamento.

— Porque está me fuzilando com esse olhar, hein? Você sabe que eu digo mesmo isso, para manter os caras afastado de você, e até agora você nunca reclamou, aliás, sempre me agradeceu por isso, pois assim o seu foco ficava apenas no trabalho – Jack questionou enquanto eu fechava a porta e tirava o casaco.

— Eu sei e sou grata por isso, mas a partir de hoje, você não precisa mais falar que temos algo, ok? Já consigo cuidar dos pervertidos sozinha – ressaltei e me aproximei dando um beijo em sua bochecha – Boa noite, doidinho.

— Já vai dormir? Você está bem, Ana?

— Estou bem sim. Não se preocupe. Vou dormir cedo, porque amanhã estou de plantão o dia todo – informei, então ele me desejou boa noite e eu me dirigi até o meu quarto.

Entretanto, fiquei bolando na cama por um bom tempo antes de, finalmente, conseguir dormir.


★ ★ ★ ★ ★


MEMORIAL UNIVERSITY MEDICAL CENTER

CHRISTIAN

Passei a noite toda pensando na Ana e no que ela havia feito comigo. Não só fisicamente e sim, emocionalmente. Fiquei encantado pela mesma, desde a última vez que a vi, quando vim de madrugada ao hospital, com meu filho meio febril e tossindo muito, e Anastasia o atendeu tão bem.

Antes de conhecê-la, eu não pensava em namorar novamente, pois amava muito minha falecida esposa e não me encontrava ainda preparado para substituir aquele amor, mas Teddy estava crescendo e precisava de uma figura materna na vida dele.

Porém, na época, eu não tentei nada devido a ameaça do falso noivo da Ana, mas agora que eu sabia a verdade, estava disposto a tentar me aproximar dela. Todavia, quando o dia amanheceu, ela não apareceu e sim uma técnica, informando que cuidaria de mim.

Pensei que talvez Anastasia estivesse trabalhando a tarde e que por isso não tinha vindo me ver, mas minutos depois, a vi passando pelo corredor, então conclui que a mesma estava me evitando depois de ontem.

— Oi, Sr. Grey. Está na hora. Vamos – disse Kate adentrando o quarto, empurrando uma cadeira de rodas.

Ela me ajudou a sentar na cadeira e logo me conduziu para fora do isolamento, porém paramos na enfermaria para ela poder pegar o papel do Raio-X que eu ia fazer para a cirurgia.

— Alguém viu a solicitação que eu deixei aqui em cima do balcão? – Kate inquiriu e a mesma parecia brava.

— Tá aqui comigo – escutei a voz da Anastasia vindo detrás de mim e logo ela parou do meu lado – Bom dia, Sr. Grey.

— Bom dia, Ana – a cumprimentei e a mesma deu um sorriso, depois voltou a olhar a técnica.

— Eu vou descer agora lá no RH e aí já aproveito e deixo ele no Raio-X.

“RH? Será que ela vai pedir demissão por causa do que houve ontem?” indaguei pensativo, à medida que Anastasia me conduzia pelo corredor, indo rumo ao elevadores.

— Você não precisa pedir demissão por minha causa – comentei olhando para cima, quando estávamos sozinhos.

— Não vou pedir demissão, Christian.

— Verdade? – a questionei, então a mesma abaixou o olhar, encarando-me.

— O pessoal do RH pediram minha carteira de trabalho para atualizarem os dados. Não vou sair daqui tão cedo. Eu amo esse hospital, amo os meus filhos postiços e amo os amigos que fiz aqui – Ana disse e empurrou a cadeira de rodas quando as portas do elevador se abriram.

Fiquei muito feliz em saber que a mesma não ia embora, pois assim eu teria mais tempo para conquistá-la. E depois quando estivesse totalmente sarado, a pediria em namoro, ou logo em casamento.

Anastasia me deixou na sala de espera do Raio-X e informou a uma técnica, que estava ao balcão, que ela iria se ausentar alguns minutos, mas que logo retornaria. Fiquei sozinho por quase dez minutos, até que Ana apareceu novamente, sentando em uma cadeira perto de onde me encontrava.

— Como foi lá? – perguntei tentando puxar papo com ela.

— Bem. Eita, seu acesso está entupido! – Anastasia exclamou se inclinando por cima de mim, pegando no meu braço esquerdo, fazendo-me sentir seu perfume delicioso.

Ela logo percebeu sua posição e voltou a se sentar, se desculpando.

— Não foi nada de mais, Ana. Mas posso saber que perfume que você está usando?

Anastasia franziu o cenho.

— Não podemos usar perfume aqui no hospital, então opto por usar um creme hidratante corporal. Esse é de Macadâmia, o meu preferido.

— Ele tem um cheiro bom. Minha ex-esposa gostava de Avelã.

— Esse é cheiroso também, mas prefiro o de Macadâmia mesmo.

Quando eu ia perguntar à ela se a mesma gostava só de creme hidratante ou se usava tudo que possuía aquele cheiro, me chamaram para bater o Raio-X.





ANASTASIA

Depois que voltamos do Raio-X, eu conduzi Christian para o quarto dele e o ajudei a se deitar novamente.

— Vou pedir para Kate vir tirar esse acesso e pegar outro – informei, já me conduzindo rumo a porta.

— Porque você não está cuidando de mim hoje, Ana? – escutei ele perguntar, então parei e me virei, retornando para perto do leito.

— A clínica tá cheia esse final de semana, porque vai ter cirurgia eletiva de amígdalas. Então, eu estou tentando deixar tudo adiantado agora pela manhã, para quando for à tarde, eu só passar visita e evoluir os pacientes – informei e o vi assentir, meio triste – Mas não se preocupe, Christian. Você está em boas mãos. Kate é uma ótima técnica de enfermagem. Agora preciso ir, mas eu volto para fazer o último exame que o Dr. Trevelyan solicitou – falei tocando em seu ombro, para em seguida, sair do quarto.

Dei um pulinho na cirúrgica, para ver se Jack poderia me emprestar o carrinho dele do Eletrocardiograma, pois o meu estava com defeito.

— Jackzinho, lindo do meu coração – murmurei me aproximando do balcão, onde o mesmo se encontrava sentado em sua cadeira.

— Ihhh, já vem pedir. O que foi, amor? – ele perguntou, então dei a volta, parando atrás de sua cadeira, e comecei a fazer uma massagem em seus ombros.

— Sabe aquele seu carrinho de eletro? Será que poderia emprestar ele rapidinho para sua best friend aqui?

— Lhe empresto até a minha vida – ele disse sorrindo, pegando uma das minhas mãos, que estava sobre seus ombros, e dando um beijo no dorso dela.

— Porque essa felicidade toda? – indaguei, meio desconfiada.

— Porque eu vou dar alta para todos os meus pacientes – informou o ortopedista, sentado perto de nós.

— Doze leitos vagos! Cara, eu estou no céu cantando com os anjos – comentou Jack, fazendo-me rir – Ah, se você quiser, depois me manda o meu paciente que tá lá na sua clínica.

Meu riso murchou na hora.

— Seu isolamento ali, ainda está ocupado e eu sei que o paciente dali não é acompanhado pelo ortopedista, então deixa o 69 lá no 69 mesmo – falei, já pegando a chave da Sala de Equipamentos, onde ele guardava o carrinho, e depois sai da enfermaria.


★ ★ ★ ★ ★


— Esse exame não causa danos à saúde...

— Tudo bem, Ana. Eu confio em você – Christian disse, me interrompendo.

— Isso é rotina. Temos sempre que dizer aos pacientes, o que iremos fazer – avisei e continuei – Com ele, o doutor vai poder avaliar se você tem, ou não, algum risco cirúrgico relacionado a alguma cardiopatia. Esses eletrodos aqui vão ser grudados ao seu peito e abaixo da axila – falei mostrando os locais em mim para ele, que assentiu concordando – Vou precisar que tire a camisola.

— Você vai ter que me ajudar – Christian comentou, então me aproximei para poder desatar os nós da parte de trás.

— Para o exame dar certo, você precisa está bem calmo – informei enquanto tirava a camisola dele, com cuidado para que eu não visse o pau dele, porque na última vez, resultou numa situação bem constrangedora.

— Com você aqui? Isso vai ser um pouco difícil.

— Então pedirei para Kate fazer o exame – falei, já me afastando.

— Espere. Não vai, Ana. Prometo ficar calmo.

Retornei e comecei a fixar os eletrodos sobre a pele dele, para depois iniciar o exame, que demorou alguns minutos.
— Prontinho. Você foi perfeito – murmurei após desligar o aparelho.

— Acho que mereço uma recompensa, né?

Sorri daquilo enquanto desafixava os eletrodos.

— Você está bem grandinho para ganhar um pirulito, Christian.

— E que tal um beijo? – ele indagou, fazendo-me corar na hora.

Qualquer outra enfermeira, brigaria com Christian para que o mesmo fosse mais respeitoso, pois não havia dado aquela liberdade para ele fazer aquele tipo de comentário.

Todavia, eu tinha dado ousadia à ele, acidentalmente, quando o chupei ontem, então não falei nada, apenas guardei as coisas no carrinho e sai do quarto, com o rosto, provavelmente, mais vermelho que um tomate.

Nenhum comentário:

Postar um comentário