sexta-feira, 27 de março de 2020

Paciente 69 - Capítulo 02


MEMORIAL UNIVERSITY MEDICAL CENTER
SAVANNAH, GA, MAIO DE 2017

ANASTASIA

Anos atrás, quando voltei para Savannah após ter tido o meu filho, por meio dos meus amigos, consegui entrar novamente no hospital, mas como se fosse um castigo de Deus ou obra do destino, o chefe dos enfermeiros me escalou para trabalhar alguns meses na UTI Neonatal, onde passei a conviver e cuidar diariamente de recém-nascidos e logo me vi arrependida do que tinha feito.

Entretanto, eu não poderia voltar atrás, pois havia muita coisa em jogo e eu sentia no fundo do meu coração que meu filho estava bem, que estava sendo muito amado por aquela família.

Então, para ocupar o espaço materno que eu sentia em mim, ou para retratar o que havia feito no passado, eu passei a adotar aqueles bebês e crianças que ficavam internados no hospital, tratando-os com um imenso carinho de mãe.

Minha escala, ao longo desses anos variou muito e passei por todos as clínicas e UTIs, porém meus plantões intercalavam mais na Emergência, na Clínica Pediátrica e na UTI Neonatal.

Hoje estava na Clínica Ped e me encontrava terminando de evoluir na pasta do paciente do leito 60 quando Jack apareceu.

— Amor meu? – ele chamou-me sorrindo, escorando-se ao balcão da pediatria.

— Eu não vou descer para o café hoje. Desculpe, Jack – informei enquanto carimbava e assinava minha evolução na pasta.

— Eu também não vou. A cirúrgica está lotada e é por isso que estou aqui. Tem um paciente da UTI Adulto que eu preciso receber e meus leitos estão todos ocupados. Preciso de um leito urgentemente e eu vi no sistema que você está com o isolamento vago então...

— É homem ou mulher? – indaguei levantando-me, indo até a colméia onde ficavam as pastas dos pacientes e guardando a que estava evoluindo, antes da chegada do meu melhor amigo.

— Homem. Queimado – Jack me informou quando retornei para perto dele, dando a volta no balcão, escorando-me de lado também – Você nem vai precisar visitar e evoluir ele. Eu dou um pulinho aqui quando as coisas tiverem mais calma lá na cirúrgica...

— Tudo bem, Jack. Não precisa fazer isso. Você tem 39 leitos para visitar e evoluir e eu só tenho 23 então fico com o paciente 69.

— Sério? Oh meu Deus. É por isso que eu te amo – ele disse me abraçando e dando um beijo na minha bochecha, fazendo-me sorrir – Deixa eu ir lá avisar a Leila para ela mandar o paciente.

— Ei espera. Preciso limpar o isolamento primeiro.

— Te dou quinze minutos, amor! – Jack gritou no corredor, já se afastando novamente, então avistei uma das meninas da limpeza e a informei sobre o quarto 69.

— Vamos receber um novo paciente? – escutei a voz de Kate e me virei, a mesma se encontrava com uma bandeja com materiais para pegar um acesso.

— Sim, da Clínica Cirúrgica. E meus parabéns, Kate. Você é a técnica que está com menos pacientes.

— Só fico com ele se você pegar o acesso do 56, porque já tentei três vezes e nada. As veias do pobrezinho é fina demais e só você tem experiência em pegar a veia dos bebês em dois segundos, Ana – ela disse e eu assenti, já a acompanhando até o quarto.


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Quando olhei para o paciente, que vinha sendo conduzido na maca, senti uma sensação de que já o conhecia de algum lugar e tive a certeza quando peguei a pasta do prontuário e vi seu nome à medida que Leila começava a falar sobre ele, enquanto as técnicas dela, o levavam para o isolamento.

— Paciente internado há dois meses, com queimaduras de 3º grau na região abdominal...

— Ele é acamado? – perguntei interrompendo-a.

— Não, mas anda com restrição devido à lesão na barriga. Eu já solicitei a avaliação do cirurgião plástico à pedido do médico lá da UTI, mas você reforça o pedido de novo, por favor?

— Ok – respondi e me lembrei que ele tinha um filho, que na época que o mesmo esteve aqui no hospital fora para tratar o menino – Sabe o que houve com o Sr. Grey?

— Segundo informações passadas por ele mesmo, houve um vazamento de gás no prédio ao qual o mesmo tinha recentemente ido morar com o filho e ao voltar para pegar um brinquedo para o menino, algo caiu sobre ele. Provavelmente, a polícia vai querer interrogá-lo novamente e a assistente social vai vir trazer o filho dele para visitá-lo, já que na UTI eles não podem receber visitas.

— Tudo bem. E a medicação?

— Alguns antibióticos que estão na prescrição e para dor ele tava tomando Tramal, principalmente antes de fazer o curativo, mas o paciente começou a apresentar sintomas de vício, então o doutor mudou para Dipirona.

— Dipirona? – indaguei incrédula encarando-a, pois sabia que isso não era suficiente para aliviar a dor durante o processo de limpeza de uma queimadura de 3º grau – Meu Deus, Leila. Faz quanto tempo que vocês estão torturando esse pobre homem? – inquiri indo até a janela do quarto de isolamento, observando-o atentamente.

— Há duas semanas. Eu pensei que você só sentisse empatia com as crianças.

— Eu sinto com todos aqueles que sofrem desnecessariamente de dor – falei a encarando de relance.

— Olha, Ana, a minha parte eu fiz. Dei a sugestão para mudar a medicação do coitado, porque todo dia eu escutava os gritos dele na hora do curativo, mas eu não posso obrigar o médico a prescrever aquilo que ele não quer, né? Tenta solicitar a mudança quando o cirurgião plástico vir avaliá-lo, porque o paciente agora é dele. Acho que isso é tudo. Eu preciso voltar agora, pois tenho um óbito para evoluir ainda. Qualquer coisa, interfona para mim.

Assenti, já a agradecendo e voltei o meu olhar para o paciente que dormia.

— Já terminei de trocar todos os meus acessos, Anastasia – escutei a voz de Kate então olhei para a mesma, que havia parado ao meu lado – Esse é o meu paciente?

— Sim, mas não se preocupe porque eu vou cuidar dele pessoalmente. Você só lê minha evolução e evolui da sua forma – comentei e retornei ao balcão da enfermaria, já pegando o telefone do gancho.

Disquei o número do ramal da sala da telefonista do hospital e pedi que ela ligasse, com urgência, para o Dr. Trevelyan.

— Porque você vai cuidar dele se nem é essa a sua função?

— Não sei, Kate. Só sinto que preciso ajudá-lo depois do que houve com ele. Coitado.

— O paciente mal chegou e você já está apaixonada por ele – ela comentou rindo, me fazendo rolar os olhos enquanto dava a volta no balcão para me sentar em minha cadeira.

— Acho que não vou mais te emprestar para a cirúrgica não.

— Porque?

— Porque Jack está te corrompendo. Você está vendo malícia em tudo, desde que voltou do plantão de lá.

Ela riu e foi atender a uma menininha que queria um novo conjunto de pijama, enquanto que a mim, peguei o telefone que tocava, atendendo-o. Era o Dr. Elliot Trevelyan, o cirurgião plástico, filho do diretor do hospital e da chefe dos médicos.

— Oi doutor, desculpe incomodá-lo, mas estou com um paciente que precisa urgentemente de uma mudança de medicação para dor na prescrição dele – falei e comecei a relatar de um modo geral sobre o quadro do paciente 69 e ele disse que já estava à caminho do hospital para resolver esse problema e visitar os demais pacientes dele – Obrigada, doutor. Muito obrigada mesmo – o agradeci, já desligando o telefone com um imenso sorriso no rosto.


★ ★ ★ ★ ★


Estava terminando de entregar mais alguns desenhos de colorir para um dos meus “filhos” quando Elliot apareceu na enfermaria.

— Oi, Anastasia.

— Oi, Dr. Trevelyan – o cumprimentei à medida que pegava a garotinha, que se encontrava sentada na mesa do interior do balcão, e a colocava no chão.

— Bigadu, mamãe Ana.

— De nada, minha princesa – falei e logo a menina correu para a mãe dela que se encontrava na porta do quarto e que sorriu para mim, antes de ambas adentrarem.

— Passei logo aqui porque na cirúrgica estou com mais pacientes.

— Eu que agradeço a prioridade, doutor – comentei dando um sorriso.

— O paciente está no isolamento?

— Sim, mas está dormindo agora – informei, e me aproximei dele com a prancheta e a pasta do prontuário, em mãos, para ele dar uma olhada no histórico – Então, doutor, o paciente está com Dipirona prescrito...

— Dipirona? Coitado – Elliot disse terminando de passar o álcool em gel nas mãos, já puxando minha cadeira e sentando em frente a um dos computadores da enfermaria – Ele já está no sistema?

— Sim.

— Ok, vou imprimir uma nova prescrição para a farmácia liberar o remédio logo. Vou prescrever Ibuprofeno para uso diário e passarei pequenas doses de Vicodin, restritamente para a hora do curativo, ok?

— Ok.

— E eu quero que abram o curativo dele, porque vou lá na cirúrgica passar visita e quando eu voltar, vou querer dar uma olhada na lesão para ver como vou proceder com os enxertos de pele.

— Sim, doutor.

— Boa tarde, Ana. Oi, filho – a pediatra e chefe dos médicos nos cumprimentou indo abraçar Elliot para depois ir pegar um pouco de álcool em gel, a fim de higienizar as mãos, antes de ir se sentar em frente do outro computador.

— Boa tarde, Dr.ª Grace.

— Vou dar alta para quatro pacientes agora e por favor, agilize a descida deles ainda no seu plantão, porque no início da noite vai chegar as eletivas do final de semana.

— Sim, senhora. Quais serão os pacientes?

— O 70, 71, 72 e 73. Avise e peça para as mães virem aqui comigo, por favor.

Assenti e me dirigi até o quarto. Assim que retornei a enfermaria, o Dr. Trevelyan me entregou a prescrição nova e foi para a cirúrgica. Avisei à Kate, que tinha acabado de chegar de um curativo, que iria descer até a farmácia para pegar o remédio de dor do paciente 69.

Os rapazes da farmácia quase não liberaram o Vicodin, pois a política deles era que todos os remédios da prescrição deveriam subir juntos, mas com jeitinho eu consegui que liberassem pelo menos uma das doses para o Sr. Grey ter um pouco de alívio até às seis da tarde.

Quando voltei para a Clínica Ped, entrei no isolamento e notei que ele ainda se encontrava dormindo, então, burlando uma das regras do hospital de sempre avisarmos ao paciente o que administramos, eu conectei a seringa ao acesso dele e injetei o remédio.

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