sexta-feira, 27 de março de 2020

Minha Bela Fera - Capítulo 03


CHRISTIAN

Depois do choque inicial, percebi o que tinha feito então corri, subindo a escada e adentrando um pequeno corredor com quatro portas. Eu não sabia em qual quarto ela se encontrava, mas à medida que eu ia andando, escutei o som abafado de choro e fiquei mais mal ainda por fazê-la chorar.

— Ana? – chamei, parando em frente a porta de onde eu ouvia o seu choro – Me desculpe pela reação que tive ao te ver, mas como estava meio escuro, eu me assustei mesmo, mas eu quero te ver no claro. Por favor, me deixa te ver.

— Você vai se assustar de novo. Não vou suportar ver sua expressão de horror novamente – escutei ela dizer e parecia que a mesma tinha se aproximado da porta.

“Que droga! Sempre há uma porta entre a gente”

— Estava escuro, por isso me assustei. Eu não queria te magoar, Ana. Me perdoa, por favor – implorei, mas tive apenas o silêncio como resposta, então suspirei triste – Eu vou embora. Espero que ainda possamos continuar sendo amigos, mesmo eu já te amando.

Saí de perto da porta e comecei a me afastar, mas logo escutei a mesma sendo aberta, então me virei, vendo Anastasia aparecer devagar e erguer o rosto, que se encontrava ainda com metade dele coberto pelos seus cabelos.

— Fica. É perigoso sair nessa chuva. Tá relampejando muito.

— Eu te magoei com a minha reação estúpida. Você não me quer aqui.

— Quero. Eu quero que você passe a noite aqui. É mais seguro. Avise seus pais que vai dormir na casa de um amigo e fique aqui. Pode usar o telefone lá embaixo.

— Se eu ficar, posso te ver?

— Se quiser mesmo, pode sim.

Sorri e ela se aproximou, mas passou por mim, descendo a escada e eu a segui. Ana me mostrou onde ficava o telefone e depois me deu uma toalha para que eu tirasse a minha roupa que estava molhada.

— Obrigado, Ana.

— De nada, Christian. Eu vou deixar a porta do meu quarto encostada para quando você terminar aí.

Assenti e a vi sair da área de serviço, deixando-me sozinho.


★ ★ ★ ★ ★


Quando entrei, timidamente, no quarto dela, após ter colocado minha roupa para secar e de ter ligado para casa e falado com minha mãe, a encontrei sentada na beirada da cama.

— Quer mesmo me ver? – Anastasia perguntou, ainda de cabeça baixa, olhando para o chão.

— Sim, Ana. Ei, não precisa tirar sua roupa não. Eu só quero ver seu rosto mesmo – falei rapidamente, meio envergonhado, quando a vi se levantar e começou a descer o zíper do seu moletom.

— Não é só meu rosto que é feio, Christian. Você precisa me ver por inteira.

Ela lentamente se despiu, ficando apenas de sutiã e calcinha. Depois Anastasia deu, lentamente, um giro em torno de si mesma.

Todo o lado esquerdo do seu corpo e um pouco do direito também, além de uma boa parte de suas costas jazia uma enorme cicatriz de queimadura. Em alguns lugares como coxa, panturrilha, lateral da costa, braço e barriga havia indícios de que tinham recebidos enxertos de pele.

— Essa sou eu – ela murmurou, me encarando.

— Você é bonita – comentei com um sorriso nos lábios, aproximando-me dela.

— Pode dizer a verdade, Christian. Eu sou horrível. Uma aberração.

— Não, você não é isso, Ana. Pode não ser uma miss universo, mas você é bonita sim. Aos meus olhos, você é mais que bonita. É linda.

— Você não precisa ser legal, usando palavras gentis comigo, se sua intenção é querer me levar para a cama.

— Quê?! Não! Não! – exclamei, gesticulando com as mãos – Você está entendendo tudo errado. Eu não quero transar com você não. Deus me livre pensar em uma coisa dessa.

Notei ela me encarou triste.

— Espera, desculpe, não é isso o que você deve está pensando. Eu quero muito transar com você. Não, não é isso que eu quero dizer. Eu quis dizer que te respeito muito para pensar em não transar com você, quando eu quero transar. Entendeu? Não. Com certeza, não, porque estou falando que nem uma matraca sem parar. Ai senhor, eu não estou bem – murmurei, sentindo um mal estar enorme e uma súbita falta de ar.

— Christian? Christian, você está bem? – ouvi Anastasia falar, mas eu tava mais preocupado em respirar novamente – Tome. Beba. Deve te ajudar um pouco.


★ ★ ★ ★ ★


— Tá melhor?

— Sim. Obrigado – falei, a olhando, um pouco letárgico.

Me encontrava deitado na cama dela, e a mesma estava sentada na beirada do colchão com um copo vazio nas mãos. Ela tinha voltado a vestir seu conjunto de moletom, já a toalha enrolada em minha cintura tinha sumido e eu me encontrava só de cueca sob o edredom.

— O que você me deu?

— Um comprimido do meu remédio para crise de ansiedade. Você teve uma crise dessa agora a pouco – Anastasia informou, deixando o copo sobre a mesinha de cabeceira ao lado da cama.

— Que vergonha que eu estou de você – resmunguei, fazendo uma careta.

— Vergonha de mim? Porque?

— Paguei o maior mico na frente da menina que eu gosto – murmurei, me sentando.

— Você realmente gosta de mim? – ela inquiriu, parecendo meio incrédula.

— Sim.

— Assim do jeito que eu sou?

— Sim, Ana. Eu não me apaixonei por você por causa da sua aparência e sim pela nossas conversas, pelo que você demonstra ser realmente. Eu te amo pelo que você é aqui dentro – falei, tocando onde devia ser o coração dela – E eu espero que você aceite ser a minha namorada.

— S-sua n-namorada? – a vi gaguejar, assustada.

— Sim – afirmei, afastando o cabelo da frente do seu rosto, pegando-o entre minhas mãos, então me inclinei e beijei o lado deformado de sua face, depois o outro e em seguida sua testa – Eu quero muito te beijar, mas você sendo já minha namorada, porque para mim você é muito especial.

A vi começar a chorar, então a abracei e fiquei afagando sua costa enquanto ela se acalmava.

— Isso só pode ser um sonho. Não pode ser real – a escutei choramingar contra meu peito.

— Isso é real, Ana. Muito real. Te amo, minha princesa encantada.

— Você sabe que se me beijar, eu não vou virar uma linda princesa de contos de fadas – Anastasia disse, se desvencilhando de mim, me encarando meio timidamente.

— Não precisa ter vergonha de olhar para mim. Então... aceita ser a minha namorada? Posso te dar um tempo para pensar, se quiser.

— Não. Eu aceito sim.

Sorri e aproximei meu rosto do dela, beijando-a lentamente.

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