CHRISTIAN
Enquanto Anastasia se esquentava perto do aquecedor à lenha, tirei minhas botas e subi para o quarto, abrindo uma das gavetas da pequena cômoda localizada ali, que a muito tempo eu nem ousava tocar.
O perfume dela ainda estava impregnado nas roupas dobradas e bem guardadas por ela mesma no dia anterior a sua morte. Foi impossível não me recordar de alguns momentos que passamos juntos durante esses anos de casados.
Suspirei, trancando novamente no fundo do meu subconsciente aquelas lembranças, e peguei uma blusa de lã com mangas compridas. Já que a maluca estava nua por baixo do vestido de noiva, aproveitei e peguei também uma das minhas cuecas mais novas.
— Tome. Vista-se se não quiser morrer de frio a noite – falei, assim que desci, já me aproximando e parando perto dela.
Seu olhar ia de mim para a roupa em minhas mãos e eu percebi a hesitação nela, mesmo assim Anastasia pegou as peças que eu lhe oferecia e me agradeceu, deixando-me um pouco surpreso até.
— Está com fome? – perguntei, indo até a cozinha.
— Sim. Você não me deixou comer bolo, lembra?
Não fiz questão de responder, apenas olhei o que poderíamos jantar, pois como eu tinha ido cedo para Fort River, acabei não almoçando em casa, e geralmente a noite eu comia as sobras que ficavam do almoço.
Peguei uma linguiça defumada, um pedaço de queijo na geladeira e minhas últimas reservas de carne seca de cervo. Fatiei e coloquei em um prato, depositando-o em cima da mesa junto com uma jarra de leite e dois copos com o café que havia sobrado de hoje cedo.
— Pode me ajudar aqui? – ouvi Anastasia inquirir, então me virei e a vi tentar abrir os botões detrás do vestido.
Me aproximei e os abri para ela, que me agradeceu novamente. Depois que Anastasia se vestiu, a mesma se encaminhou até a mesa onde eu já me encontrava sentado e sentou na cadeira à minha frente.
— Eu não tomo café – ela disse, então despejei o dela em meu copo e Anastasia colocou um pouco de leite.
— Tem pão caseiro que minha irmã fez anteontem, mas está meio duro já – informei e a mesma negou com a cabeça, enquanto comia as fatias finas da linguiça junto com as fatias de queijo.
— Essa roupa é da sua irmã? – Anastasia indagou, me encarando.
— Não. Era da minha falecida esposa – murmurei, bebendo meu café.
— Ela morreu de quê?
Anastasia me olhava com uma cara de curiosa.
— Ataque de urso – falei, esperando que aquilo encerrasse o olhar curioso dela para cima de mim, mas isso não aconteceu, então suspirei fundo e contei – Há um ano, eu saí para caçar e ver minhas armadilhas, que eu sempre coloco para pegar esquilos e coelhos. Quando voltei para casa, um urso tinha invadido a cabana.
Ela arregalou os olhos.
— Minha esposa era uma excelente atiradora, uma verdadeira amazona, mas não se pode atirar e matar urso por aqui. Esses desgraçados são protegidos por lei. Ela estava grávida de oito meses, com agilidade de se movimentar bem baixa, então a mesma não teve chance contra o urso.
— Sinto muito.
— É por isso que amanhã quando eu for caçar, você irá comigo.
— Oi? Peraí... Eu não sei caçar não. Nunca peguei em nenhuma arma, inclusive.
— Vai ser perigo para mim te levar, mas não posso deixar você aqui. No inverno, os ursos ficam mais ferozes, pois estão famintos e comem de tudo. Além de matar minha esposa e meu filho, o desgraçado também comeu o meu cachorro que sempre ia comigo nas caçadas, mas que no dia o deixei para vigiar a casa, porque os cães são ótimos para alertar sobre a presença de ursos.
— Que tipo de bicho tem por aqui, além dos ursos comedores de gente e de cachorro?
— Tem alces, cervos, leões da montanha e, é claro, lobos selvagens – informei, terminando de beber o meu café.
— Tudo isso aparece por aqui? – Anastasia inquiriu, assustada.
— Não. Nem todos. Apenas os lobos e os ursos que são mais audaciosos, se aproximam e invadem as casas.
— Não tem perigo deles entrarem enquanto estivermos dormindo?
— Não. Depois do ocorrido, eu deixei a casa mais segura. Não precisa se preocupar com isso enquanto estiver morando aqui. Vou te devolver viva para o seu pai. Mas espero que tenhamos pelo menos uma convivência pacífica durante isso.
— Eu não te odeio... Como você se chama mesmo?
— Christian.
— Então, Christian. Eu não te odeio, não totalmente. Odeio mais o meu pai por ter nos obrigado a isso – ela disse, dando de ombros, comendo mais uma fatia de carne seca com queijo – Posso pelo menos ir na cidade nos finais de semana?
— Não. Seu pai deixou bem claro para mim, que você não poderia ir em Fort River. Ele me fez jurar isso, mas não sei porque.
— Eu acho que deve ter a ver com a minha prima – Anastasia murmurou, já suspirando – Tudo bem então. Vou ter que aprender a ficar sem meu celular e minhas coisas, pelo menos tem energia, já que tem uma lâmpada ali e uma geladeira – ela comentou, apontando para a sala e para geladeira atrás de mim.
— Tenho um gerador que fica no celeiro a alguns metros daqui. Tenho que ter energia para a cerca elétrica contra ursos ao longo da minha propriedade. Vamos dormir? Precisamos acordar cedo amanhã – informei, me levantando da mesa – Vai querer dormir comigo na cama no andar de cima, ou ali no sofá.
— Na cama, óbvio. Nem a pau eu durmo aqui embaixo. Você pode ter dito que não entra nada aqui, mas eu não vou confiar não. Se entrar alguma coisa, eu vou está muito linda atrepada ali em cima, sã e salva.
Não deixei de sorrir do comentário dela.
— Você sabe fazer alguma coisa? – indaguei, recolhendo o resto das coisas de cima da mesa.
— Comer, fazer compras, mexer no seu celular e ir para as baladas – Anastasia falou, sorrindo.
— Me refiro à tarefas domésticas – ressaltei e ela negou com a cabeça.
— Eu nasci em berço de ouro e diamantes, Christian. Eu nunca precisei fazer nada, sempre tive minha babá para fazer tudo para mim, até preparar o meu banho de banheira e escolher minha roupa.
— Bom, sua babá não estará aqui durante esse um ano que você passará morando comigo. E você vai ter que aprender algumas coisas para sobreviver aqui. Ou aprende e sobrevive ou morre, porque a natureza é selvagem por aqui. Está disposta a aprender?
Vi Anastasia fazer uma cara de poucos e respirar fundo.
— Não, mas não tem outro jeito, tem?
— Não – murmurei, já a chamando para me ajudar a guardar as coisas e levar os copos e a garrafa de café.
Mesmo com uma cara de nojo, de gente mesquinha que nunca pegou em um sabão em barra na vida, ela lavou os copos, secou eles e os guardou no armário. Mandei Anastasia subir para o quarto enquanto eu verificava as portas e as janelas, e desligava as luzes.
Depois subi com uma lamparina acesa, para deixar o quarto meio claro, e vi ela em pé ao lado da cama, com os braços cruzados.
— Achei que você tivesse pelo menos uma cama de vergonha – Anastasia retrucou, me encarando.
— Isso é uma cama, mulher.
— Não. Isso é um colchão no chão coberto por um lençol.
Rolei os olhos.
— O sofá está disponível lá embaixo – informei, colocando a lamparina no chão, perto do meu lado da cama.
Me virei para pegar o cobertor de pele de coelho dentro do armário e quando olhei para a cama, vi Anastasia sentada no meio da mesma. Me sentei ao lado dela e ajeitei o cobertor grosso sobre nossas pernas.
Ela então me deu um “Boa noite” e se deitou de costas para mim. Fiz o mesmo, já arrumando o cobertor sobre ela e desligando a lamparina ao meu lado, fechando os olhos em seguida.
Enquanto Anastasia se esquentava perto do aquecedor à lenha, tirei minhas botas e subi para o quarto, abrindo uma das gavetas da pequena cômoda localizada ali, que a muito tempo eu nem ousava tocar.
O perfume dela ainda estava impregnado nas roupas dobradas e bem guardadas por ela mesma no dia anterior a sua morte. Foi impossível não me recordar de alguns momentos que passamos juntos durante esses anos de casados.
Suspirei, trancando novamente no fundo do meu subconsciente aquelas lembranças, e peguei uma blusa de lã com mangas compridas. Já que a maluca estava nua por baixo do vestido de noiva, aproveitei e peguei também uma das minhas cuecas mais novas.
— Tome. Vista-se se não quiser morrer de frio a noite – falei, assim que desci, já me aproximando e parando perto dela.
Seu olhar ia de mim para a roupa em minhas mãos e eu percebi a hesitação nela, mesmo assim Anastasia pegou as peças que eu lhe oferecia e me agradeceu, deixando-me um pouco surpreso até.
— Está com fome? – perguntei, indo até a cozinha.
— Sim. Você não me deixou comer bolo, lembra?
Não fiz questão de responder, apenas olhei o que poderíamos jantar, pois como eu tinha ido cedo para Fort River, acabei não almoçando em casa, e geralmente a noite eu comia as sobras que ficavam do almoço.
Peguei uma linguiça defumada, um pedaço de queijo na geladeira e minhas últimas reservas de carne seca de cervo. Fatiei e coloquei em um prato, depositando-o em cima da mesa junto com uma jarra de leite e dois copos com o café que havia sobrado de hoje cedo.
— Pode me ajudar aqui? – ouvi Anastasia inquirir, então me virei e a vi tentar abrir os botões detrás do vestido.
Me aproximei e os abri para ela, que me agradeceu novamente. Depois que Anastasia se vestiu, a mesma se encaminhou até a mesa onde eu já me encontrava sentado e sentou na cadeira à minha frente.
— Eu não tomo café – ela disse, então despejei o dela em meu copo e Anastasia colocou um pouco de leite.
— Tem pão caseiro que minha irmã fez anteontem, mas está meio duro já – informei e a mesma negou com a cabeça, enquanto comia as fatias finas da linguiça junto com as fatias de queijo.
— Essa roupa é da sua irmã? – Anastasia indagou, me encarando.
— Não. Era da minha falecida esposa – murmurei, bebendo meu café.
— Ela morreu de quê?
Anastasia me olhava com uma cara de curiosa.
— Ataque de urso – falei, esperando que aquilo encerrasse o olhar curioso dela para cima de mim, mas isso não aconteceu, então suspirei fundo e contei – Há um ano, eu saí para caçar e ver minhas armadilhas, que eu sempre coloco para pegar esquilos e coelhos. Quando voltei para casa, um urso tinha invadido a cabana.
Ela arregalou os olhos.
— Minha esposa era uma excelente atiradora, uma verdadeira amazona, mas não se pode atirar e matar urso por aqui. Esses desgraçados são protegidos por lei. Ela estava grávida de oito meses, com agilidade de se movimentar bem baixa, então a mesma não teve chance contra o urso.
— Sinto muito.
— É por isso que amanhã quando eu for caçar, você irá comigo.
— Oi? Peraí... Eu não sei caçar não. Nunca peguei em nenhuma arma, inclusive.
— Vai ser perigo para mim te levar, mas não posso deixar você aqui. No inverno, os ursos ficam mais ferozes, pois estão famintos e comem de tudo. Além de matar minha esposa e meu filho, o desgraçado também comeu o meu cachorro que sempre ia comigo nas caçadas, mas que no dia o deixei para vigiar a casa, porque os cães são ótimos para alertar sobre a presença de ursos.
— Que tipo de bicho tem por aqui, além dos ursos comedores de gente e de cachorro?
— Tem alces, cervos, leões da montanha e, é claro, lobos selvagens – informei, terminando de beber o meu café.
— Tudo isso aparece por aqui? – Anastasia inquiriu, assustada.
— Não. Nem todos. Apenas os lobos e os ursos que são mais audaciosos, se aproximam e invadem as casas.
— Não tem perigo deles entrarem enquanto estivermos dormindo?
— Não. Depois do ocorrido, eu deixei a casa mais segura. Não precisa se preocupar com isso enquanto estiver morando aqui. Vou te devolver viva para o seu pai. Mas espero que tenhamos pelo menos uma convivência pacífica durante isso.
— Eu não te odeio... Como você se chama mesmo?
— Christian.
— Então, Christian. Eu não te odeio, não totalmente. Odeio mais o meu pai por ter nos obrigado a isso – ela disse, dando de ombros, comendo mais uma fatia de carne seca com queijo – Posso pelo menos ir na cidade nos finais de semana?
— Não. Seu pai deixou bem claro para mim, que você não poderia ir em Fort River. Ele me fez jurar isso, mas não sei porque.
— Eu acho que deve ter a ver com a minha prima – Anastasia murmurou, já suspirando – Tudo bem então. Vou ter que aprender a ficar sem meu celular e minhas coisas, pelo menos tem energia, já que tem uma lâmpada ali e uma geladeira – ela comentou, apontando para a sala e para geladeira atrás de mim.
— Tenho um gerador que fica no celeiro a alguns metros daqui. Tenho que ter energia para a cerca elétrica contra ursos ao longo da minha propriedade. Vamos dormir? Precisamos acordar cedo amanhã – informei, me levantando da mesa – Vai querer dormir comigo na cama no andar de cima, ou ali no sofá.
— Na cama, óbvio. Nem a pau eu durmo aqui embaixo. Você pode ter dito que não entra nada aqui, mas eu não vou confiar não. Se entrar alguma coisa, eu vou está muito linda atrepada ali em cima, sã e salva.
Não deixei de sorrir do comentário dela.
— Você sabe fazer alguma coisa? – indaguei, recolhendo o resto das coisas de cima da mesa.
— Comer, fazer compras, mexer no seu celular e ir para as baladas – Anastasia falou, sorrindo.
— Me refiro à tarefas domésticas – ressaltei e ela negou com a cabeça.
— Eu nasci em berço de ouro e diamantes, Christian. Eu nunca precisei fazer nada, sempre tive minha babá para fazer tudo para mim, até preparar o meu banho de banheira e escolher minha roupa.
— Bom, sua babá não estará aqui durante esse um ano que você passará morando comigo. E você vai ter que aprender algumas coisas para sobreviver aqui. Ou aprende e sobrevive ou morre, porque a natureza é selvagem por aqui. Está disposta a aprender?
Vi Anastasia fazer uma cara de poucos e respirar fundo.
— Não, mas não tem outro jeito, tem?
— Não – murmurei, já a chamando para me ajudar a guardar as coisas e levar os copos e a garrafa de café.
Mesmo com uma cara de nojo, de gente mesquinha que nunca pegou em um sabão em barra na vida, ela lavou os copos, secou eles e os guardou no armário. Mandei Anastasia subir para o quarto enquanto eu verificava as portas e as janelas, e desligava as luzes.
Depois subi com uma lamparina acesa, para deixar o quarto meio claro, e vi ela em pé ao lado da cama, com os braços cruzados.
— Achei que você tivesse pelo menos uma cama de vergonha – Anastasia retrucou, me encarando.
— Isso é uma cama, mulher.
— Não. Isso é um colchão no chão coberto por um lençol.
Rolei os olhos.
— O sofá está disponível lá embaixo – informei, colocando a lamparina no chão, perto do meu lado da cama.
Me virei para pegar o cobertor de pele de coelho dentro do armário e quando olhei para a cama, vi Anastasia sentada no meio da mesma. Me sentei ao lado dela e ajeitei o cobertor grosso sobre nossas pernas.
Ela então me deu um “Boa noite” e se deitou de costas para mim. Fiz o mesmo, já arrumando o cobertor sobre ela e desligando a lamparina ao meu lado, fechando os olhos em seguida.

gente lyssa você é demais
ResponderExcluirObrigada, florzinha 💞
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