quinta-feira, 26 de março de 2020

Maliciosamente Obsessivos - Capítulo 07


ANASTASIA

Se pela manhã o trânsito estava a meu favor, agora à tarde a história era outra. Havia pegado um congestionamento enorme na saída de Vancouver e agora me encontrava em outro por causa de um acidente ocorrido há duas quadras daqui, em pleno centro de Seattle.

Olhei a hora no celular pela centésima vez. Três e trinta e cinco da tarde.

“Eu já deveria estar na reunião” resmunguei mentalmente então baixei o olhar para minha roupa e bufei de raiva, pois não daria tempo de passar no meu apartamento para trocar de roupa.

Após longos cinco minutos, finalmente os guardas liberaram o trânsito então voei para o meu destino. Cheguei vinte minutos atrasada na Grey Corporation. Estacionei o Volvo do outro lado da rua e sai do carro.

O enorme prédio que se erguia à minha frente devia ter no mínimo uns sessenta andares e era dessas edificações modernas onde as paredes de concreto eram substituídas por estruturas de aço e vidro. Peguei minha bolsa e a pasta do projeto, fechei o carro e atravessei a rua.

Ao passar pelas portas giratórias notei que havia as iniciais G.C na cor preta colada nos vidros. Todo o interior do enorme saguão era em granito preto, desde o piso até o balcão da recepção, já as poltronas e os sofás eram em tons de branco e cinza.

— Posso ajudá-la, senhorita?

Olhei para o lado e vi uma moça usando um terninho branco a dois metros de distância sorrindo para mim.

Notei que a jovem devia ser de descendência indiana devido a mesma usar uma espécie de pequena gota cintilante colada ao centro de sua testa. A informei de que havia vindo para uma reunião com o Sr. Grey, então ela me olhou de cima a baixo.

Eu estava usando um Jimmy Choo preto de salto agulha, meia calça preta, shortinho jeans desbotado e rasgado nas pontas, regata branca um pouco transparente que evidenciava sutilmente meu sutiã azul e por fim, uma jaqueta azul escura com botões em dourado bem ao estilo militar.

Sabia que não estava devidamente vestida para uma reunião de trabalho, mas pelo menos eu havia conseguido chegar ao prédio.

A moça pediu que eu a acompanhasse e retornou para detrás do balcão da recepção, ela então perguntou meu nome e puxou o telefone do gancho. Comunicou sobre minha presença e segundos depois desligou o aparelho.

Recebi dela uma pulseira branca com a palavra “VISITANTE” escrita em preto e orientações para chegar ao andar onde ficava o escritório de Christian.

Quando as portas do elevador se abriram para uma réplica em escala menor da recepção do térreo, me dirigi calmamente até o balcão onde havia três mulheres usando terninhos brancos.

Era uma morena, uma loira e uma asiática. Duas delas se encontravam sentadas atrás da estrutura de granito preto concentradas nos computadores, já a terceira estava em pé e conversava ao celular.

— ...e não quero saber como você vai fazer isso, só sei que o Sr. Grey quer essas obras de artes na galeria dele em Milão até o final do dia. Dá o seu jeito, Frank! – a morena encerrou a ligação e me encarou do mesmo jeito que a recepcionista havia feito – Você deve ser a Srta. Steele.

— Sim, sou eu.

— Irei informar ao Sr. Grey que a senhorita já chegou. Por favor, sente-se ali.

Ela me indicou uma das poltronas então me sentei colocando a bolsa e a pasta no assento ao lado. Vinte minutos se passaram e nada. Há vinte minutos que eu estava sentada, esperando a boa vontade de Christian para me atender.

— Srta. Steele?

Ergui o olhar da revista que folheava e encarei a secretária asiática.

— Sim.

— O Sr. Grey está a sua espera.

A moça me conduziu por um corredor depois viramos a esquerda em outro, até pararmos em frente a uma porta de mogno com detalhes entalhados direto na madeira. Simplesmente lindo e perfeito. A jovem então abriu a porta e a segurou para que eu passasse.

A sala de Christian era bem espaçosa e bem clara, devido às enormes janelas de vidro. Havia uma pequena sala de estar à esquerda, já do lado oposto, jazia uma enorme mesa feita do mesmo tipo de madeira da porta e duas poltronas brancas de couro.

Tanto a decoração quanto os móveis eram em tons de vermelho, preto e branco. Nunca tinha vindo aqui, pois antigamente nossa relação se restringia apenas ao apartamento e ao quarto de jogos dele, mas sempre o ouvia falar de seu trabalho e o admirava muito por isso. Naquela época é claro.

— Srta. Steele, que surpresa – ele falou cinicamente, ainda sentado em sua cadeira por trás da mesa – Sente-se. Deseja uma água, um café, ou um suco, talvez?

— Eu não quero nada – falei emburrada e esperei a secretária sair para me aproximar dele, durante o caminho joguei minhas coisas em cima de uma cadeira, então bati as mãos sobre a mesa dele – Vamos parar com esse joguinho, Christian.

— Não sei do que a senhorita está falando.

— Queria conversar comigo ontem durante a festa e eu não quis, então armou esse circo todo. Pois bem. Estou aqui. O que quer conversar?

— Srta. Steele – ele murmurou se inclinando para frente deixando seu rosto a poucos centímetros do meu – Lamento decepcioná-la, mas realmente quero decorar minha nova mansão.

Seu rosto estava sério, mas eu percebi que o seu olhar cintilava em divertimento. Me aprumei e cruzei os braços, então Christian voltou a se recostar em sua cadeira.

— E por que não solicitou outro designer?

— Soube que a senhorita é a mais competente da W. Design, então eu queria a melhor trabalhando para mim.

— É claro que queria – murmurei sarcástica enquanto revirava os olhos.

— Então, Srta. Steele... Trouxe-me alguns de seus antigos trabalhos para eu poder dar uma olhada?

— Não.

— Ainda acha que isso é uma brincadeira?

— Não. Eu não acho, mas sempre gosto de visitar o ambiente antes de começar a trabalhar nele.

— Entendo. Me acompanhe.

Christian se levantou e seguiu rumo à porta, peguei a bolsa juntamente com a pasta e a contragosto o acompanhei. Um leve sorriso se formou no rosto dele enquanto segurava a porta para que eu pudesse passar.

— Está de carro, Srta. Steele? – ele perguntou já no corredor.

— Sim.

Quando chegamos à recepção, só a secretária loira e a morena se encontravam. A loira se levantou rapidamente e entregou um papel à Christian, que assinou depois devolveu para ela.

— Amber reagende a próxima reunião para amanhã, pois sairei com a Srta. Steele para vermos a decoração da minha mansão e eu não retornarei mais hoje – ele disse para a secretária que havia lhe entregado o papel.

— Sim, Sr. Grey.

— E Natasha entre em contato com o hotel onde a Srta. Steele está hospedada para informá-los de que cobriremos qualquer despesa feita por ela.

— Não será necessário – falei para a morena, que já havia pegado o telefone – Estou no meu próprio apartamento.

Christian me olhou e deu um discreto sorriso. Rolei os olhos e sai andando rumo ao elevador.

Enquanto descíamos ele fez duas ligações, quanto que a mim fiquei encostada num dos cantos do elevador com os olhos fechados e com a testa pressionada contra a gelada parede, a fim de que minha repentina dor de cabeça passasse um pouco.

— Não me diga que tem claustrofobia.

Abri lentamente os olhos, me virei e o encontrei encostado no outro lado me encarando com os braços cruzados.

— Não tenho claustrofobia. Estou apenas com dor de cabeça.

— Talvez seja fome. Já comeu hoje?

— Porque se importa? – retruquei zangada, mas a pergunta dele me fez realmente pensar na última vez que coloquei algum tipo de alimento no meu estômago.

— Por que você trabalha para mim agora e eu não quero perder a melhor designer de Vancouver.

Rolei os olhos e ele se aproximou de mim rapidamente.

— Por que faz isso?

— Isso o quê? – rebati.

— Desvia o seu olhar do meu.

— Ah isso? – rolei os olhos novamente desafiando-o e vi Christian fechar sua mão em punho e abri-la, repetindo o movimento seguidamente.

De repente ele bateu as mãos contra a parede me encurralando no canto do elevador. Não abaixaria a cabeça para ele. Não como eu fazia tempos atrás, então o enfrentei com queixo erguido.

Comecei a sentir pequenas fisgadas em meu ventre, mas desconfiava que era apenas uma reação causada pela proximidade dos nossos corpos. Finalmente as portas se abriram e eu sorri quando ele saiu do elevador em fúria.

Deixei a pulseira de visitante com a moça da recepção e me dirigi para fora do prédio encontrando Christian conversando com um homem, que imediatamente o reconheci. Era Jason Taylor, seu motorista e segurança pessoal.

— Peça para a Sra. Jones preparar um jantar para duas pessoas – escutei Christian dizer enquanto me aproximava deles.

— Sim, senhor.

Passei pelo os dois indo em direção ao meu carro, mas mal cheguei a pisar o pé no asfalto quando seguraram-me pelo braço.

— Para onde a senhorita pensa que vai?

— Meu carro – falei apontando para o outro lado da rua.

— Iremos no meu – ele informou e estendeu sua mão à minha frente – As chaves do seu carro.

Olhei sugestivamente para o meu braço então Christian o soltou. Vasculhei o interior da bolsa depois lhe entreguei as chaves. Ele deu um passo para o lado fazendo um gesto para que eu passasse à sua frente.

Respirei fundo e segui rumo ao luxuoso Tesla Model S Preto. Taylor abriu a porta do passageiro para mim e eu o agradeci.

Pensei que ele fosse nos levar até a mansão, mas quando vi Christian sentando na cadeira do motorista e guiando o carro para dentro do trânsito de Seattle, percebi que ficaria sozinha com ele e senti um arrepio percorrer todo o meu corpo.

“Nada de pânico garota. Ele não pode te tocar” disse a mim mesma tentando convencer-me enquanto Christian dirigia para fora da cidade rumo ao campo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário