quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Um Jeito Estranho de Amar - Capítulo 46


CHRISTIAN

Enquanto esperava minha respiração voltar ao normal, fiquei avaliando tudo o que tinha acontecido. Não sabia explicar, mas aquela foda havia sido estranha, porém prazerosa. No início, eu me encontrava nervoso, todavia quando a Ana me disse que confiava em mim, aquilo fez com que eu conseguisse aos poucos me soltar.

— Dormiu? – perguntei minutos depois, quando parei de escutar a respiração ofegante dela.

— Não. Estou cansada, mas não ao ponto de dormir, amor – ela disse, virando a cabeça para o meu lado, dando um sorriso, antes de ficar deitada de lado.

Então, fiz o mesmo, deitando-me de frente para Ana e ficamos trocando carícias. Eu mexendo em seu cabelo, já ela, acariciando meu rosto à medida que ia me elogiando pela minha performance na nossa transa, me fazendo ficar um pouco envergonhado com aquilo.
— Acho melhor voltarmos a nos tratar como “Mozão” e “Bonequinha”, porque o nosso Ursinho deve estar perto de chegar, eu acho. Por onde será que anda mesmo o meu celular? – indaguei, franzindo o cenho, tentando lembrar mentalmente, da última vez que eu havia tocado nele.

— Também não sei por onde anda o meu, Mozão – Ana comentou rindo e se aconchegando mais ao meu corpo, então a abracei – E por falar no Ursinho. Eu estou com muita saudade dele. Não vejo a hora de dizer que eu o amo muito. Não tanto quanto vocês se amam, porque esse amor deve ser maior que o meu por vocês dois.

— Não desmereça o seu amor, Bonequinha. Com certeza, dá para se amar duas pessoas com a mesma intensidade, carinho e cumplicidade. Não estaríamos onde estamos, aceitando você nas nossas vidas, se isso fosse impossível de acontecer – falei, beijando o alto de sua testa – E o nosso Ursinho vai gostar muito de saber que você ama ele também. Só que é claro que vou precisar do apoio de vocês dois com as minhas consultas na psicóloga, para eu poder conseguir me controlar e me curar do meu ciúme. Eu não quero que isso destrua o que vamos construir a partir de hoje.

— Ok, Mozão. Pode contar comigo sempre. Mas você está indo muito bem até agora – ela murmurou, erguendo o rosto, encarando-me.

— Graças a Deus. Mas eu posso ter uma recaída a qualquer momento, Bonequinha. E com certeza, isso acabaria magoando vocês dois.

Toquei em sua bochecha e Ana se esticou um pouco, dando-me um selinho, antes de voltar a enfiar o rosto no meu peito.

— Não se preocupe, Mozão. Vou ficar no seu pé o tempo todo e aí de você se não for a uma consulta, porque eu vou te arrancar o saco fora – ela me ameaçou, fazendo-me rir.

— Eu já disse a você que pode arrancá-los, pois não me servem para nada mesmo.

— Porque não servem?

— Depois eu te conto sobre isso, Bonequinha. A gente suou um pouco, então acho melhor tomarmos banho e esperar o nosso Ursinho lá na sala. Que tal?

— Hum... Banho. Gostei da ideia, Mozão.

Ela ergueu o rosto, me encarando de novo, com um sorriso que logo me fez sacar a intenção dela, causando um breve crise de riso.

— Quero ver quando você parir a nossa filha, se vai continuar com esse forninho aí acesso o tempo todo – comentei, me desvencilhando dela, que ria também – Vou banhar primeiro – informei, já me levantando da cama.

— Ei? Damas primeiro, ou melhor, grávidas primeiro – Ana resmungou.

— Aqui não existe essa, meu bem. Quem tem prioridade é o que chega primeiro – zombei, já correndo para fora do quarto, indo rumo ao banheiro, fechando logo a porta, trancando-a.

— Abre a porta, Mozão – escutei ela murmurar do outro lado, segundos depois.

— Não, porque você vai querer abusar do meu corpinho lindo de novo! – exclamei rindo baixo.

— Também, mas quero fazer xixi primeiro.

Não me aguentei e ri alto, indo até a porta, abrindo só uma brecha, já encarando uma Ana fazendo um bico e uma cara de cachorro abandonado.

— Nem disfarça esse seu fogo, não é? – inquiri, vendo-a logo mudar de expressão, dando um sorriso cínico para mim.

— Pra quê disfarçar, Mozão? Ele não está matando ninguém. Agora me deixa entrar, senão eu faço xixi aqui mesmo na porta – ela ameaçou, então me escorei na soleira da porta e empurrei devagar a mesma para que se abrisse totalmente.

— Não vou fazer nada – avisei enquanto Ana adentrava o banheiro e só a ouvi rir baixo.


★ ★ ★ ★ ★


Depois do banho, vestimos nossas roupas de dormir e fomos para a sala de estar, assistir TV enquanto esperávamos Jack, que chegaria em alguns minutos, pois provavelmente o mesmo já deveria se encontrar na balsa que fazia a travessia entre o continente e a ilha.
— Olha, Mozão – Ana me chamou quando levantei do sofá para ir até a cozinha, pegar mais peito de peru fatiado para nós.

— Que foi? – indaguei me aproximando dela de novo.

— Terremoto!

A mesma se encontrava com a camisola erguida até o busto, tendo um copo quase cheio de água repousado sobre a barriga e o mesmo, a cada chute da nossa filha, balançava.
— Tadinha da nossa Uni, Bonequinha – falei, já pegando o copo, à medida que ela tentava controlar a risada – Vou dizer para o Ursinho, quando ele chegar, que você chamou a nossa filha de um tipo de desastre natural.

— Aposto que ele vai rir e querer ver também, Mozão.

Apenas rolei os olhos, sorrindo, e me afastei, indo depositar o copo sobre a mesa.


Interrompemos nossa programação para voltarmos com mais informações sobre o trágico acidente na BC-99, envolvendo um caminhão e dois carros de passeio a apenas alguns quilômetros da fronteira do Canadá. Acabamos de receber a confirmação da morte do motorista que dirigia o VW Golf R preto e que se encontrava em estado grave no Surrey Memorial Hospital...


— Oh meu Deus, não! – escutei Ana exclamar, como se tivesse apavorada.

Assim que me virei, vi a foto do Jack no canto superior da tela e demorei alguns milésimos de segundos para associar a imagem dele com o acidente que era noticiado. Foi então que minha ficha caiu e eu senti o ar faltar em meus pulmões imediatamente.

Tudo se tornou turvo com as lágrimas e meus joelhos falharam, cedendo ao peso do meu corpo, à medida que um grito de desespero e angústia saía fortemente da minha garganta.





ANASTASIA

— Oh meu Deus, não! – exclamei em choque, quando mostraram a foto do Jack no noticiário.

“Ele não pode estar morto. Não o nosso Ursinho” pensei aflita, sentindo a sensação de angústia crescer em meu peito, fazendo lágrimas aparecerem em meus olhos.

Segundos depois, escutei Christian gritar um “Não” bem alto e eu me virei assustada, a tempo de vê-lo cair de joelhos no chão, chorando. Desliguei a televisão e me levantei apressada, indo ampará-lo. Me sentei no chão ao seu lado, já o envolvendo com os meus braços, trazendo ele para mim.

— Jack não pode está morto! Não pode! – Christian murmurava em pleno choro, dando outro grito, à medida que se agarrava ainda mais em mim.

Não consegui dizer nada, pois eu mesmo não queria acreditar naquilo. Me encontrava sofrendo muito com aquela notícia, mas a dor do Christian era mil vezes maior que a minha. Então, mesmo chorando em silêncio, o aconcheguei melhor em meus braços, tentando passar, através do meu abraço, uma força que eu mesmo estava precisando naquele momento.

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