ANASTASIA
Era por volta das sete e meia da noite, quando estacionei o meu carro em frente a garagem da casa do Christian. Mesmo eu tendo saído bem cedo da clínica, lá pelas quatro horas da tarde, precisei resolver os últimos detalhes para o almoço de amanhã.
“Graças a Deus, está tudo pronto” pensei, aliviada, após fazer mentalmente uma checagem rápida sobre a organização do almoço, antes de pegar minha bolsa e sair do carro.
— Christian!? – chamei pelo mesmo, um pouco alto, enquanto tirava os sapatos e deixava as chaves sobre uma mesinha perto da porta.
— Aqui na cozinha, amor! – ele gritou, então me dirigi até lá, o encontrando só de short e de costa para porta.
Mal adentrei o lugar e já senti o cheiro forte de cebola no ar, fazendo-me tapar o nariz.
— Acho que vampiros não gostam é de alho e não de cebola, querido – zombei à medida que eu deixava minha bolsa sobre a mesinha e me aproximava dele, vendo o mesmo despejar cebolas picadas em duas tigelas grandes com carnes.
Ele sorriu e olhou para mim, já se inclinando um pouco, dando-me um selinho.
— Estou terminando de temperar as carnes que você trouxe meio-dia, para elas irem pegando logo um sabor, depois vou banhar para a gente ir jantar, ok? Hoje vamos comer comida mexicana – Christian anunciou com um sorriso.
“Pimenta de novo não!” choraminguei em pensamento enquanto fazia uma cara de desânimo.
— Não é muito apimentada não, é? – o questionei, pois às vezes ele gostava de colocar muita pimenta na comida, costume esse que o mesmo adquiriu quando morou no Brasil.
— Não se preocupe. Eu coloquei quase nada de pimenta, amor.
— Tudo bem, querido – murmurei, já indo me sentar na mesa, mas Christian me pediu para pegar dois pratos que se encontravam sobre o fogão e ir arrumar a mesa para jantarmos.
— Joga essa cebolinha picada e esse abacate em cubos sobre os nachos.
Após jogar as coisas por cima do prato, peguei o mesmo e o prato de tacos e os depositei sobre a mesa, limpando a mesma e colocando mais dois pratos e talheres. À medida que eu fazia isso, Christian guardou as carnes na geladeira e saiu dizendo que iria banhar.
Enquanto o esperava, peguei meio receosa um dos nachos e experimentei, ficando logo surpresa ao achá-lo delicioso e não muito apimentado, então peguei mais um, depois mais outro e quando Christian apareceu de novo, vestido só com a calça do pijama, eu já estava acabando de comer o prato todo.
— Está gostoso, não é? – ele perguntou, rindo.
— Uhum... – murmurei de boca cheia.
— Ainda bem que fiz mais – Christian informou, indo até o fogão, abrindo o forno e tirando de dentro uma travessa com mais nachos, já colocando sobre a mesa, em cima de um aparador de panela – Só que esses aqui não tem abacate. É só carne e queijo.
Ele se sentou à mesa, então dividimos a travessa entre nós dois, depois os tacos, antes de começarmos a jantar.
— Como foi seu dia, querido? – indaguei e ele começou a contar algumas situações engraçadas que aconteceram durante as aulas dele, pela manhã.
— E o seu dia, meu amor, como foi?
— Ah, foi bem puxado. Pacientes novos e pacientes antigos, que voltaram por outros motivos, além de que eu precisei ver os últimos detalhes desse almoço de amanhã. Foi difícil ajeitar tudo à tempo, mas consegui, graças a Deus.
— Nem deve ser difícil assim planejar um almoço de domingo – Christian comentou, fazendo-me semicerrar os olhos, encarando-o.
— Então porque você mesmo não organizou tudo, hein?
— Porque isso é função das mulheres. Pelo menos na minha família são as mulheres que organizam tudo. Eu sei que você trabalha, mas não posso fazer nada quanto a isso. É assim que funciona para mim, Ana.
— Mas não funciona para mim, Christian. E é melhor você começar a mudar isso.
— Olha, se quiser uma opinião minha, tudo bem, mas eu não entendo nada de festas.
— Aprenda então, ora bolas!
— Qual o problema de organizar um almoço de Dia dos Pais para uma família que vai ser sua também? Aliás, que já é sua.
— Eu não vejo problema nenhum em organizar, mas tem que ser com antecedência e com parceria, Christian. E você não me ajudou em nada. E olha que você tem mais tempo livre que eu.
— Ana... – o vi respirar fundo – A gente já falou sobre isso e eu aceito de boa o fato de você trabalhar, mas eu quero que você se dedique mais a nossa família. Eu estou me adequando a uma vida na qual não fui criado, se tenho que abrir mão de certas coisas, porque você também não pode?
— Eu já abri mão da coisa que era mais importante para mim, Christian – murmurei, empurrando o prato vazio para o lado.
— Você abriu mão de quê?
— Da minha liberdade de escolha – falei e vi ele passar a mão pelo rosto, irritado.
— Vai ser sempre isso, não é? – Christian inquiriu, mas o ignorei e continuei a falar.
— Quando você decidiu que eu teria um filho seu, foi escolha sua e não minha. Se eu fosse outra qualquer, teria abortado sem dar satisfação e seguido em frente com a minha vida, mas eu fiquei por você, continuei essa gravidez por você.
— É, mas na primeira oportunidade joga isso na minha cara, não é? Você viu a forma como eu fui criado, mesmo assim aceitou se casar comigo, sabendo que ganharia obrigações em casa.
— Ok, Christian – resmunguei, emburrada.
— Não. Não está “Ok”. Não precisa fazer mais nada, Ana. Deixe que eu vou falar com minhas irmãs para elas organizarem tudo para mim, a partir de agora – ele disse, se levantando da mesa, já pegando os pratos – E se tiver algo pendente para o almoço de amanhã, me diga logo, para eu pedir para Eloise e Mia virem mais cedo e me ajudarem com as coisas.
— Não precisa. A sua futura esposa perfeita já fez o serviço dela de organizar tudo.
— Então porque fez esse showzinho todo, hein? Porque incitou essa briga idiota entre a gente se você já organizou tudo? – escutei Christian vociferar e eu virei o rosto, encarando ele que se encontrava perto da pia.
— Porque queria que percebesse que eu fiquei aborrecida por você ter jogado isso nas minhas costas e nem ter me ajudado, mas não importa mais – comentei e levantei da mesa.
— Eu vou ajudar você em quê? Isso é coisa de mulher, Ana. Eu não entendo de nada disso! Minha parte, que é ficar em pé na frente da churrasqueira e assar o churrasco, eu vou fazer amanhã.
Apenas respirei fundo e peguei minha bolsa.
— Eu vou subir para deitar um pouco. A não ser é claro, que você queira que eu fiquei e lave a louça toda e limpe a cozinha, porque isso é coisa de mulher.
— Seria o correto a se fazer, mas eu já meio que me acostumei com a ideia de que essa não é você e nunca vai ser.
“Ele está pedindo, Senhor!” pensei, respirando fundo novamente, depositando bruscamente a bolsa sobre a mesa.
DOIS DIAS DEPOIS
Era por volta das sete e meia da noite, quando estacionei o meu carro em frente a garagem da casa do Christian. Mesmo eu tendo saído bem cedo da clínica, lá pelas quatro horas da tarde, precisei resolver os últimos detalhes para o almoço de amanhã.
“Graças a Deus, está tudo pronto” pensei, aliviada, após fazer mentalmente uma checagem rápida sobre a organização do almoço, antes de pegar minha bolsa e sair do carro.
— Aqui na cozinha, amor! – ele gritou, então me dirigi até lá, o encontrando só de short e de costa para porta.
Mal adentrei o lugar e já senti o cheiro forte de cebola no ar, fazendo-me tapar o nariz.
— Acho que vampiros não gostam é de alho e não de cebola, querido – zombei à medida que eu deixava minha bolsa sobre a mesinha e me aproximava dele, vendo o mesmo despejar cebolas picadas em duas tigelas grandes com carnes.
Ele sorriu e olhou para mim, já se inclinando um pouco, dando-me um selinho.
— Estou terminando de temperar as carnes que você trouxe meio-dia, para elas irem pegando logo um sabor, depois vou banhar para a gente ir jantar, ok? Hoje vamos comer comida mexicana – Christian anunciou com um sorriso.
“Pimenta de novo não!” choraminguei em pensamento enquanto fazia uma cara de desânimo.
— Não é muito apimentada não, é? – o questionei, pois às vezes ele gostava de colocar muita pimenta na comida, costume esse que o mesmo adquiriu quando morou no Brasil.
— Não se preocupe. Eu coloquei quase nada de pimenta, amor.
— Tudo bem, querido – murmurei, já indo me sentar na mesa, mas Christian me pediu para pegar dois pratos que se encontravam sobre o fogão e ir arrumar a mesa para jantarmos.
— Joga essa cebolinha picada e esse abacate em cubos sobre os nachos.
Após jogar as coisas por cima do prato, peguei o mesmo e o prato de tacos e os depositei sobre a mesa, limpando a mesma e colocando mais dois pratos e talheres. À medida que eu fazia isso, Christian guardou as carnes na geladeira e saiu dizendo que iria banhar.
— Está gostoso, não é? – ele perguntou, rindo.
— Uhum... – murmurei de boca cheia.
— Ainda bem que fiz mais – Christian informou, indo até o fogão, abrindo o forno e tirando de dentro uma travessa com mais nachos, já colocando sobre a mesa, em cima de um aparador de panela – Só que esses aqui não tem abacate. É só carne e queijo.
Ele se sentou à mesa, então dividimos a travessa entre nós dois, depois os tacos, antes de começarmos a jantar.
— Como foi seu dia, querido? – indaguei e ele começou a contar algumas situações engraçadas que aconteceram durante as aulas dele, pela manhã.
— E o seu dia, meu amor, como foi?
— Ah, foi bem puxado. Pacientes novos e pacientes antigos, que voltaram por outros motivos, além de que eu precisei ver os últimos detalhes desse almoço de amanhã. Foi difícil ajeitar tudo à tempo, mas consegui, graças a Deus.
— Nem deve ser difícil assim planejar um almoço de domingo – Christian comentou, fazendo-me semicerrar os olhos, encarando-o.
— Então porque você mesmo não organizou tudo, hein?
— Porque isso é função das mulheres. Pelo menos na minha família são as mulheres que organizam tudo. Eu sei que você trabalha, mas não posso fazer nada quanto a isso. É assim que funciona para mim, Ana.
— Mas não funciona para mim, Christian. E é melhor você começar a mudar isso.
— Olha, se quiser uma opinião minha, tudo bem, mas eu não entendo nada de festas.
— Aprenda então, ora bolas!
— Qual o problema de organizar um almoço de Dia dos Pais para uma família que vai ser sua também? Aliás, que já é sua.
— Eu não vejo problema nenhum em organizar, mas tem que ser com antecedência e com parceria, Christian. E você não me ajudou em nada. E olha que você tem mais tempo livre que eu.
— Ana... – o vi respirar fundo – A gente já falou sobre isso e eu aceito de boa o fato de você trabalhar, mas eu quero que você se dedique mais a nossa família. Eu estou me adequando a uma vida na qual não fui criado, se tenho que abrir mão de certas coisas, porque você também não pode?
— Eu já abri mão da coisa que era mais importante para mim, Christian – murmurei, empurrando o prato vazio para o lado.
— Você abriu mão de quê?
— Da minha liberdade de escolha – falei e vi ele passar a mão pelo rosto, irritado.
— Vai ser sempre isso, não é? – Christian inquiriu, mas o ignorei e continuei a falar.
— Quando você decidiu que eu teria um filho seu, foi escolha sua e não minha. Se eu fosse outra qualquer, teria abortado sem dar satisfação e seguido em frente com a minha vida, mas eu fiquei por você, continuei essa gravidez por você.
— É, mas na primeira oportunidade joga isso na minha cara, não é? Você viu a forma como eu fui criado, mesmo assim aceitou se casar comigo, sabendo que ganharia obrigações em casa.
— Ok, Christian – resmunguei, emburrada.
— Não. Não está “Ok”. Não precisa fazer mais nada, Ana. Deixe que eu vou falar com minhas irmãs para elas organizarem tudo para mim, a partir de agora – ele disse, se levantando da mesa, já pegando os pratos – E se tiver algo pendente para o almoço de amanhã, me diga logo, para eu pedir para Eloise e Mia virem mais cedo e me ajudarem com as coisas.
— Não precisa. A sua futura esposa perfeita já fez o serviço dela de organizar tudo.
— Então porque fez esse showzinho todo, hein? Porque incitou essa briga idiota entre a gente se você já organizou tudo? – escutei Christian vociferar e eu virei o rosto, encarando ele que se encontrava perto da pia.
— Porque queria que percebesse que eu fiquei aborrecida por você ter jogado isso nas minhas costas e nem ter me ajudado, mas não importa mais – comentei e levantei da mesa.
— Eu vou ajudar você em quê? Isso é coisa de mulher, Ana. Eu não entendo de nada disso! Minha parte, que é ficar em pé na frente da churrasqueira e assar o churrasco, eu vou fazer amanhã.
Apenas respirei fundo e peguei minha bolsa.
— Eu vou subir para deitar um pouco. A não ser é claro, que você queira que eu fiquei e lave a louça toda e limpe a cozinha, porque isso é coisa de mulher.
— Seria o correto a se fazer, mas eu já meio que me acostumei com a ideia de que essa não é você e nunca vai ser.
“Ele está pedindo, Senhor!” pensei, respirando fundo novamente, depositando bruscamente a bolsa sobre a mesa.

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