ANASTASIA
“Por que as pessoas tinham que morrer? Por que não podemos simplesmente ser imortais?” perguntava-me, mentalmente, enquanto observava o caixão da minha mãe ser baixado lentamente em direção ao fundo do buraco, para logo em seguida, alguém começar a jogar terra em cima da polida e cara tampa de madeira adornada de diversas coroas de flores.
Uma lágrima desceu por minha bochecha, mas a limpei num jeito robótico. Não queria mostrar fraqueza diante daquelas pessoas que diziam serem amigos da minha mãe, mas que com certeza agora a julgavam erroneamente.
Suicídio. Fora este o pecado que minha mãe havia cometido. Não éramos uma família perfeita, mas éramos felizes ou quase. Nessas últimas semanas, após a morte da tia Clarisse, meus pais brigavam o tempo todo. Papai começou a dar mais atenção para minha irmã Behati e nos deixou de lado.
Em umas das famosas brigas típicas que estavam se tornando rotina em casa, nós ouvimos papai gritar que a única filha que ele tinha era a Behati. Mamãe sempre dizia que era para ele parar de falar aquele tipo de coisa, porque eu também era filha dele.
Claro que eu era filha dele. Eu era a sua primogênita. Mas a pergunta frequente em minha mente durante as brigas deles dois era: “Porque ele não me amava?”.
Minha irmã mais nova Kim era adotada. Alguém a deixou na porta de casa e mamãe a contragosto do papai acolheu ela no seio familiar. Mas, eu era sua filha de sangue, porque ele não gostava de mim?
Enquanto as pessoas deixavam o local, restando apenas os familiares ao redor do túmulo, vaguei meu olhar pelo pequeno grupo. Todos possuíam expressões tristes.
Behati chorava compulsivamente abraçada ao nosso primo Christian. Elliot se mantinha de cabeça abaixada. Tio Carrick pegou minha irmãzinha Kim no colo e tocou levemente no meu ombro, fazendo-me encostar-se a ele.
Eu tinha que ser forte, pois minhas irmãs precisavam de mim. Olhei de relance para o meu pai, que se encontrava um pouco afastado de nós, e lembrei automaticamente da conversa que tive com mamãe na noite em que ela atentou contra sua própria vida.
— Oi meu anjinho, ainda acordada?
Mamãe entrou no meu quarto e se deitou na beirada da cama, me puxando para si.
— O chato do Christian não me deixa dormir. Ele ronca muito – sussurrei, me aconchegando mais em seus braços.
Mamãe sorriu e deu uma olhada em meu primo, que estava deitado ao meu lado.
— Não o culpe, minha querida. Christian deve ter algum problema respiratório.
— E eu é que tenho que ficar escutando ele? Porque ele não vai dormir com o Elliot no quarto da Behati? Por que não posso dormir com vocês igual à Behati?
— Já conversamos sobre isso, meu amor, mas vou lhe explicar pela última vez. Sempre que seus primos vierem dormir aqui em casa a divisão será essa. Elliot, que é adolescente, precisa ter um quarto só para ele. Behati dormirá conosco, porque sua irmãzinha Kim ainda é pequena e ainda chora durante a noite, já Christian lhe fará companhia. Agora você entende, minha princesa?
A olhei e balancei a cabeça em sinal de negação. Fiquei observando-a por alguns segundos. Ela lembrava tanto tia Clarisse, a quem eu amava como fosse minha segunda mãe. As duas eram gêmeas não idênticas, mas às vezes quando olhava bem para minha mãe era como se visse minha tia.
— Mamãe, estou com saudade da tia Clarisse.
— Também estou, meu anjinho.
Fazia apenas um mês que ela havia morrido. Os adultos não conversavam sobre esse assunto perto da gente, pois segundo eles isso era papo de gente grande. Mamãe beijou carinhosamente minha testa, depois o meu cabelo.
— Anastasia?
— Sim, mamãe.
— Quero que me prometa uma coisa, ok?
Assenti.
— Pare de ficar implicando com o Christian o tempo todo, meu amor. Gostaria muito de ver vocês unidos como se fossem irmãos, também quero que cuide sempre de suas irmãs e que perdoe o seu pai.
— Perdoá-lo, mamãe, por quê? Ele fez alguma coisa?
— Apenas me prometa, meu anjinho.
— Sim, mamãe. Eu prometo.
— Boa menina. Nunca esqueça que a amo muito.
Naquela noite adormeci envolta nos braços de minha mãe, simplesmente ignorando o ronco do Christian ao meu lado.
Agora entendia o motivo dela ter dito aquelas palavras. Mamãe estava se despedindo de mim e talvez até me orientando para como devesse agir quando ela não estivesse mais conosco. Esse dia chegou. Chegou rápido demais. Senti tocarem meu ombro então me virei percebendo que todos já haviam saído de perto do túmulo.
Por mais que tivéssemos a mesma idade, Christian sempre fora alguns centímetros mais alto do que eu, mas ali parado à minha frente, onde o terreno era íngreme e ele estava no lado mais baixo, nós parecíamos ter a mesma altura.
Christian me abraçou e eu fechei os olhos com força para tentar impedir as lágrimas, que teimavam em descer. Ele estava sendo solidário comigo. Christian entendia nossa dor. Minha dor.
— A vida não é justa – choraminguei contra o ombro dele.
Ele não disse nada. Mas o que poderia ser dito para amenizar a dor de uma garota de treze anos que acabara de enterrar a mãe? Nada. O silêncio seria o bastante. Bastante o suficiente para conforta-me.
Como mamãe ficaria feliz se nos visse assim abraçados e não brigando. Mas porque brigaríamos em um enterro? Principalmente, no enterro dela?
— Vamos? – ele perguntou, minutos depois.
Assenti, enxugando as lágrimas.
— Tchau, mamãe. Tchau, tia Clarisse – sussurrei, olhando pela última vez para as lápides uma ao lado da outra.
— Tchau, tia Carla. Tchau, mãe – Christian disse, sendo mais uma vez solidário.
Descemos o caminho de pequenos blocos de concreto que serpenteavam por entre as lápides daquele cemitério ao sul da ensolarada Chicago.
— Papai disse que vocês ficarão conosco em Evanston por um tempo – Christian falou, passando seu braço em volta do meu ombro – O que achou da notícia, futura colega de quarto?
— Ninguém merece – o empurrei – Agora que a minha vida vai virar um inferno.
— Por quê? Sou um colega de quarto tão ruim assim?
— É como se dormisse ao lado de um porco.
— Eu não ronco.
— Ronca sim.
— Não ronco, não!
— Ronca sim!
Tio Carrick logo apareceu dando encerramento a nossa pequena discussão. Claro que uma hora brigaríamos. Porque aquela era a nossa natureza. Nosso passatempo preferido.
CHICAGO, ILLINOIS, 1995
“Por que as pessoas tinham que morrer? Por que não podemos simplesmente ser imortais?” perguntava-me, mentalmente, enquanto observava o caixão da minha mãe ser baixado lentamente em direção ao fundo do buraco, para logo em seguida, alguém começar a jogar terra em cima da polida e cara tampa de madeira adornada de diversas coroas de flores.
Uma lágrima desceu por minha bochecha, mas a limpei num jeito robótico. Não queria mostrar fraqueza diante daquelas pessoas que diziam serem amigos da minha mãe, mas que com certeza agora a julgavam erroneamente.
Suicídio. Fora este o pecado que minha mãe havia cometido. Não éramos uma família perfeita, mas éramos felizes ou quase. Nessas últimas semanas, após a morte da tia Clarisse, meus pais brigavam o tempo todo. Papai começou a dar mais atenção para minha irmã Behati e nos deixou de lado.
Em umas das famosas brigas típicas que estavam se tornando rotina em casa, nós ouvimos papai gritar que a única filha que ele tinha era a Behati. Mamãe sempre dizia que era para ele parar de falar aquele tipo de coisa, porque eu também era filha dele.
Claro que eu era filha dele. Eu era a sua primogênita. Mas a pergunta frequente em minha mente durante as brigas deles dois era: “Porque ele não me amava?”.
Minha irmã mais nova Kim era adotada. Alguém a deixou na porta de casa e mamãe a contragosto do papai acolheu ela no seio familiar. Mas, eu era sua filha de sangue, porque ele não gostava de mim?
Enquanto as pessoas deixavam o local, restando apenas os familiares ao redor do túmulo, vaguei meu olhar pelo pequeno grupo. Todos possuíam expressões tristes.
Behati chorava compulsivamente abraçada ao nosso primo Christian. Elliot se mantinha de cabeça abaixada. Tio Carrick pegou minha irmãzinha Kim no colo e tocou levemente no meu ombro, fazendo-me encostar-se a ele.
Eu tinha que ser forte, pois minhas irmãs precisavam de mim. Olhei de relance para o meu pai, que se encontrava um pouco afastado de nós, e lembrei automaticamente da conversa que tive com mamãe na noite em que ela atentou contra sua própria vida.
— Oi meu anjinho, ainda acordada?
Mamãe entrou no meu quarto e se deitou na beirada da cama, me puxando para si.
— O chato do Christian não me deixa dormir. Ele ronca muito – sussurrei, me aconchegando mais em seus braços.
Mamãe sorriu e deu uma olhada em meu primo, que estava deitado ao meu lado.
— Não o culpe, minha querida. Christian deve ter algum problema respiratório.
— E eu é que tenho que ficar escutando ele? Porque ele não vai dormir com o Elliot no quarto da Behati? Por que não posso dormir com vocês igual à Behati?
— Já conversamos sobre isso, meu amor, mas vou lhe explicar pela última vez. Sempre que seus primos vierem dormir aqui em casa a divisão será essa. Elliot, que é adolescente, precisa ter um quarto só para ele. Behati dormirá conosco, porque sua irmãzinha Kim ainda é pequena e ainda chora durante a noite, já Christian lhe fará companhia. Agora você entende, minha princesa?
A olhei e balancei a cabeça em sinal de negação. Fiquei observando-a por alguns segundos. Ela lembrava tanto tia Clarisse, a quem eu amava como fosse minha segunda mãe. As duas eram gêmeas não idênticas, mas às vezes quando olhava bem para minha mãe era como se visse minha tia.
— Mamãe, estou com saudade da tia Clarisse.
— Também estou, meu anjinho.
Fazia apenas um mês que ela havia morrido. Os adultos não conversavam sobre esse assunto perto da gente, pois segundo eles isso era papo de gente grande. Mamãe beijou carinhosamente minha testa, depois o meu cabelo.
— Anastasia?
— Sim, mamãe.
— Quero que me prometa uma coisa, ok?
Assenti.
— Pare de ficar implicando com o Christian o tempo todo, meu amor. Gostaria muito de ver vocês unidos como se fossem irmãos, também quero que cuide sempre de suas irmãs e que perdoe o seu pai.
— Perdoá-lo, mamãe, por quê? Ele fez alguma coisa?
— Apenas me prometa, meu anjinho.
— Sim, mamãe. Eu prometo.
— Boa menina. Nunca esqueça que a amo muito.
Naquela noite adormeci envolta nos braços de minha mãe, simplesmente ignorando o ronco do Christian ao meu lado.
Agora entendia o motivo dela ter dito aquelas palavras. Mamãe estava se despedindo de mim e talvez até me orientando para como devesse agir quando ela não estivesse mais conosco. Esse dia chegou. Chegou rápido demais. Senti tocarem meu ombro então me virei percebendo que todos já haviam saído de perto do túmulo.
Por mais que tivéssemos a mesma idade, Christian sempre fora alguns centímetros mais alto do que eu, mas ali parado à minha frente, onde o terreno era íngreme e ele estava no lado mais baixo, nós parecíamos ter a mesma altura.
Christian me abraçou e eu fechei os olhos com força para tentar impedir as lágrimas, que teimavam em descer. Ele estava sendo solidário comigo. Christian entendia nossa dor. Minha dor.
— A vida não é justa – choraminguei contra o ombro dele.
Ele não disse nada. Mas o que poderia ser dito para amenizar a dor de uma garota de treze anos que acabara de enterrar a mãe? Nada. O silêncio seria o bastante. Bastante o suficiente para conforta-me.
Como mamãe ficaria feliz se nos visse assim abraçados e não brigando. Mas porque brigaríamos em um enterro? Principalmente, no enterro dela?
— Vamos? – ele perguntou, minutos depois.
Assenti, enxugando as lágrimas.
— Tchau, mamãe. Tchau, tia Clarisse – sussurrei, olhando pela última vez para as lápides uma ao lado da outra.
— Tchau, tia Carla. Tchau, mãe – Christian disse, sendo mais uma vez solidário.
Descemos o caminho de pequenos blocos de concreto que serpenteavam por entre as lápides daquele cemitério ao sul da ensolarada Chicago.
— Papai disse que vocês ficarão conosco em Evanston por um tempo – Christian falou, passando seu braço em volta do meu ombro – O que achou da notícia, futura colega de quarto?
— Ninguém merece – o empurrei – Agora que a minha vida vai virar um inferno.
— Por quê? Sou um colega de quarto tão ruim assim?
— É como se dormisse ao lado de um porco.
— Eu não ronco.
— Ronca sim.
— Não ronco, não!
— Ronca sim!
Tio Carrick logo apareceu dando encerramento a nossa pequena discussão. Claro que uma hora brigaríamos. Porque aquela era a nossa natureza. Nosso passatempo preferido.

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