sexta-feira, 27 de março de 2020

Minha Bela Fera - Capítulo 01


CHRISTIAN

Hoje era o meu primeiro dia no Matteo’s Restaurant. O antigo entregador havia pedido demissão e como eu estava à procura de um emprego para poder ajudar meus pais em casa, com as despesas, minha madrinha (dona do restaurante), lembrou de mim e me chamou para ocupar a vaga.

Fechei o notebook, ao qual me encontrava assistindo a um filme da minha pasta de filmes e levantei, indo para o banheiro, a fim de banhar. Após o banho, me enxuguei rapidamente, vesti uma cueca boxer vermelha, depois uma calça jeans e uma blusa cinza.

Por fim, calcei um tênis, passei um pouco de perfume, peguei minha carteira, enfiando-a no bolso detrás da calça, e sai do quarto. Acabei encontrando meu pai na sala, ainda com sua roupa de trabalho, brigando com meus dois irmãos mais novos.

O que eu poderia dizer sobre eles? Que Ethan e Elliot eram dois filhos ingratos. Que eles não entendiam os sacrifícios que o nosso pai e a nossa mãe faziam para recebermos a educação necessária para sermos homens de sucesso no futuro.

Entretanto, os gêmeos não ligavam para esse sacrifício e queriam ostentar um status de “Riquinhos”, sempre pedindo coisas caras para os nossos pais. E quando os mesmos não davam a eles, Ethan e Elliot encontravam um jeito de conseguir.

A briga dessa vez deveria ser por isso, mas não fiquei muito tempo para descobrir, pois iria me atrasar para o trabalho. Cumprimentei rapidamente os três e saí de casa, já pegando minha bicicleta na varanda e seguindo rumo ao restaurante.


★ ★ ★ ★ ★


O Matteo’s Restaurant ficava localizado perto do centro de Seattle, numa rua não muito conhecida, mas movimentada o suficiente para os meus padrinhos conseguirem manter o negócio por anos.

Tranquei minha bicicleta em uma árvore e adentrei o restaurante, indo até o balcão onde Gia Matteo (filha única dos meus padrinhos) se encontrava lixando as unhas. O lugar estava vazio, só três rapazes e uma moça limpavam as mesas e as cadeiras no estabelecimento.

— Oi, Christian! – ela exclamou, dando-me um grande sorriso.

Gia e eu, havíamos tido no ano passado uma espécie de namoro juvenil (na época, eu tinha 17 e ela, 14 anos) e havíamos terminado antes do Natal, de um jeito bem amigável. Ela deu a volta no balcão e veio me abraçar.

— Oi, lindinha – falei, retribuindo seu abraço, depois me desvencilhando dela.

— Nem acreditei quando a mamãe me contou que tinha te chamado para vir trabalhar aqui. Estou muito feliz por você, Christian. Agora pode ajudar a tia Grace e o tio Carrick com as contas, como você tanto queria.

— Verdade.

— Como eles estão?

— Estão bem, graças a Deus.

— Ah, que bom. Entra. A mamãe tá lá na cozinha preparando as massas das pizzas e o papai deve está chegando do mercado com os peixes para os sushis.

Assenti, então dei a volta no balcão e entrei na parte detrás do restaurante, onde ficava uma enorme cozinha industrial. Me aproximei de onde minha madrinha estava mexendo uma panela grande e assim que ela me viu, a mesma limpou as mãos e me abraçou, beijando-me a bochecha em seguida.

Fiquei conversando com a minha madrinha por alguns minutos e ela me explicou qual seria o meu trabalho ali. Praticamente, eu só iria fazer as entregas e nada mais, já que os demais funcionários faziam o resto do serviço, como arrumar as mesas, jogar o lixo fora e limpar a cozinha.

Quando meu padrinho chegou, ele me mostrou a moto (uma scooter vermelha) e me fez algumas orientações com relação ao trabalho. Depois fiquei ajudando, voluntariamente, a Gia no balcão quando o lugar começou a encher de clientes.

Logo surgiu três pedidos para serem entregues à domicílio, então peguei o capacete, as sacolas das porções de sushi e uma caixa de pizza, e me dirigi para fora do restaurante, já colocando os dois pedidos de sushi na parte debaixo, que era refrigerada, e na parte de cima da caixa de entrega, coloquei a pizza.

Verifiquei se minha habilitação se encontrava em minha carteira, antes de colocar o capacete e subir na moto. Entreguei primeiro a pizza, pois era o mais próximo do restaurante. Depois foi a vez dos sushis.


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— Aqui a sua gorjeta, meu jovem – disse uma simpática senhora, de meia idade, que havia vindo atender a porta.

Agradeci e saí do prédio residencial, seguindo para o último destino. A casa era em um bairro nobre da cidade, onde com certeza só deveria morar gente rica, mas não muito rica ao ponto de adquirir uma mansão.

Estacionei a moto na garagem da casa, peguei as sacolas do pedido e subi a escada da frente, adentrando na pequena varanda, já tocando a campainha. Passados alguns segundos, notei que ninguém havia vindo ver quem estava à porta, então apertei novamente o botão da campainha.

— Quem é você? – escutei uma voz feminina perguntar, meio abafada.

— Oi. Eu sou o novo entregador do Matteo’s Restaurant. Vim trazer...

— Cadê o Bob? – ela me questionou, interrompendo-me.

Assim que olhei para a lateral da porta, onde havia um vitral, vi em uma fração de segundos o que parecia ser metade de um rosto, antes do mesmo sumir e um pano cobrir o vidro.

— Ele pediu demissão – informei, em um tom um pouco mais alto.

Um silêncio se fez por alguns segundos e eu pensei que a mulher tivesse ido ligar para o restaurante da minha madrinha, a fim de confirmar minha história, porque hoje em dia não dava mesmo para se confiar em ninguém, pois qualquer um poderia ser um ladrão ou até pior, um psicopata.

Então, decidi tocar a campainha novamente, mas quando dei um passo a frente, me assustei, xingando, assim que algo bateu fortemente contra meus joelhos. Quando olhei para a porta, notei que tinha sido uma gaveta, a causadora da minha recente dor.

“Uma porta com gaveta? Ok! Tem doido para tudo nesse mundo”

— Coloque as sacolas na gaveta e espere um pouco para receber a sua gorjeta.

Fiquei totalmente incrédulo. Todo mundo tem medo de ser assaltado, mas aquilo ali era bizarro demais. Entretanto, eu fiz meu serviço, porém eu mal havia terminado de colocar o pedido dentro da tal gaveta, a mesma foi puxada, quase levando minha mão junto.

“Arranca logo o meu braço, sua neurótica por segurança!”

Eu consegui escutar o barulho, meio abafado, das sacolas sendo pegas, para depois o som ir gradativamente sumindo. Talvez, uns dois minutos depois o compartimento foi novamente aberto.

— Sua gorjeta. Pegue e vá embora.

Me aproximei, então olhei para dentro e vi uma nota de 50 dólares no fundo. Dessa vez, fui mais rápido com a minha mão.

— Obrigado – falei, porém só recebi o silêncio em resposta – De nada – sussurrei para mim mesmo, já me afastando dali.

“Essa daí é doida, com certeza” pensei olhando para a casa enquanto subia na moto, antes de colocar o capacete e voltar para o restaurante.


★ ★ ★ ★ ★


Quando cheguei em casa, por volta de meia-noite, todos já estavam deitados, ou foi o que eu pensei quando entrei e a mesma estava mergulhada na penumbra. Todavia, minha mãe se encontrava na cozinha, sentada à mesa, com uma expressão preocupada olhando para alguns papéis a sua frente.

— Mamãe? – a chamei, adentrando a cozinha, me aproximando dela.

— Oi, querido. Como foi o seu primeiro dia de trabalho? – ela perguntou, dando-me um sorriso.

— Foi bem – falei, tirando minha carteira do bolso, abrindo e colocando sobre a mesa, os 500 dólares em gorjeta que eu havia recebido aquela noite.

— Não precisa, filho. Esse dinheiro é seu.

— Não, mãe. Eu quero ajudar a senhora e o papai com as contas. Todas as minhas gorjetas e metade do meu salário será para ajudar com as despesas daqui de casa – anunciei, sorrindo, já vendo minha mãe se levantando, meio chorosa, vindo me abraçar.

— Você é um menino de ouro, Christian. Tão bondoso, meu filho.

— A senhora o papai me ensinaram a ser assim – a lembrei, sorrindo – Eu vou me recolher agora. A senhora deveria ir também, mamãe. Agora comigo ajudando vocês, a senhora não precisa mais ficar acordada até tarde revendo as contas. Vá descansar, por favor – pedi, dando um beijo em sua bochecha.

— Eu vou, filho.

Lhe desejei “Boa noite” e segui para o meu quarto, para pegar uma toalha e um calção, indo depois para o banheiro no final do corredor. Após tomar meu banho, fiquei deitado na cama, pensando nos motivos daquela mulher ser tão neurótica por segurança, ao ponto de não querer contato físico com as outras pessoas.

Pensando nas mil e umas teorias em torno daquela cliente eremita, acabei adormecendo.

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